Quarta-feira, 7 de Julho de 2004

zombie convidado: antónio pascoalinho sobre o gore italiano



considerado desde sempre como género menor dentro da arte cinematográfica e reservado exclusivamente a pervertidos amantes do sangue e das mortes violentas, o gore (ou giallo para os italianos) é um tipo de cinema pouco divulgado no nosso país. falo daqueles filmes virados para a morte como espectáculo, em que a faca penetra nos músculos do pescoço, a bala destrói "en passant" as cartilagens do tórax e o sangue jorra abundantemente dos nossos televisores para o sofá.

da obra do realizador mario bava sobressaem os primeiros grandes sucessos do horror italiano: a máscara do demónio (la maschera del demonio, 1960), uma história de feitiçaria e reencarnação que confirmou os dotes da então rainha do terror europeu: barbara steele. ficou célebre a sequência inicial com a máscara pregada literalmente no rosto da feiticeira indefesa; cinque bambole per la luna d’agosto (1970), um semi "whodunit" em que um grupo de convidados para uma festa numa ilha acaba por ficar sozinho e indefeso, enquanto os seus membros são chacinados um a um; esse fabuloso baía sangrenta (ecologia del delitto, 1971), verdadeiro percursor da série sexta-feira 13, onde um assassino psicopata (e mesmo mais que um), vai eliminando por ganância os membros duma família com as armas que consegue arranjar, da forma mais violenta possível; ou lisa i il diavolo (1972), uma incursão pelos meandros do filme de demónios, com a turista elke sommer atormentada pelos fantasmas da sua própria morte às mãos do perverso carrasco telly savalas.

de dario argento, o grande mestre do giallo, quase tudo é bom. mas alguns títulos merecem especial atenção: o mistério da casa assombrada (profondo rosso, 1975), um dos primeiros filmes a explorar as potencialidades do gore até às últimas consequências: facadas que penetram a pele, estilhaços de vidro como arma perfurante e a fabulosa morte final no elevador são disso um óptimo exemplo; suspiria (1977) e inferno (1980), são dois items da prometida trilogia sobre "as três mães", da qual o opus 3 continua à espera de ser realizado: mater suspiriorum, a mãe dos suspiros, é uma bruxa com enormes poderes que habita as catacumbas duma academia de dança na suiça. e o horror vai despontar, quando uma aluna recém-chegada começa a investigar mais do que devia (suspiria). mater tenebrarum, a mãe das trevas, vive num bloco de apartamentos em nova iorque. e não descansa enquanto não eliminar cada um dos restantes inquilinos (inferno). são duas obras fortíssimas na filmografia de argento, de um horror explícito animado por sons de rock e repletos das cores dominantes na paleta do seu realizador: vermelho vivo e dourado. terror na ópera (opera, 1987) é talvez a obra mais perfeita do seu autor: demência, vingança, muito sangue e uma violência visual de encenação barroca: a cantora amarrada com alfinetes nos olhos, de modo a que não os possa fechar enquanto assiste ao assassínio do namorado; ou a sequência da bala que atravessa um crâneo e termina no telefone que a heroína usava para pedir auxílio, são imagens dignas de uma antologia do horror. e onde dario argento já tem, forçosamente, lugar de merecido destaque.

do grande lucio fulci, muito haveria a dizer. filmou quase todos os géneros de terror, ficção científica e até mesmo comédias. mas as suas obras mais emblemáticas são, sem dúvida, o enigmático zombi 2 (1979), o filme de mortos-vivos que mais se aproxima do livro de peter tremayne, com a célebre sequência da invasão de nova iorque por um enorme bando de zombies que atravessa a ponte de manhattan, e a não menos célebre imagem da jovem assassinada no duche por uma farpa de madeira que lhe atravessa literalmente uma das vistas. o estripador de nova iorque (lo squartatore di new york, 1982), uma versão de jack the ripper à base de esquartejamentos com lâminas de barbear. e a célebre trilogia dos infernos, composta por os mistérios da cidade maldita (paura nella cità dei morti viventi, 1980), as 7 portas do inferno (l'aldilà, 1981) e a casa do cemitério (quella villa accanto al cimitero, 1981): três obras de cariz mais ou menos exploratório, em que cientistas ou pseudo-detectives tentam encontrar explicação para alguns fenómenos do oculto e acabam sempre enredados em teias do maior horror: demónios, zombies, adoradores de satã e outros quejandos, num manancial de sangue a rodos e goelas cortadas que parece não ter fim. lucio fulci lançou um modelo de filmes de terror. e vasto é já o número dos seus seguidores.

a obra de mario bava está editada em dvd nos estados unidos (zona 1) em "the mario bava collection", fácil de pedir através de www.dvdexpress.com. e na inglaterra (zona 2), em www.salvation-films.com. mas recomendam-se as edições americanas, devido a problemas de censura com as inglesas.

os filmes de dario argento costumam ter várias versões (mesmo em dvd). sugiro as edições da nouveaux pictures para suspiria (versão integral) e tenebrae. da platinum media para o mistério da casa assombrada. e a edição italiana de terror na ópera, responsabilidade da cecchi gori home video. quanto a inferno, o melhor será talvez procurar a edição zona 1 da anchor bay, por ser a única que encontrei com a versão integral do filme.

quanto a lucio fulci, recomendam-se as edições americanas da anchor bay (que tem mesmo uma "lucio fulci collection"), por garantirem a tal integralidade da obra. para zona 2, só mesmo em itália, já que as versões disponíveis em inglaterra estão todas mutiladas.

e assim sendo, espero que disfrutem de muitas horas de entretenimento. ou terror, o que mais vos divertir!

os meus 5 filmes favoritos do gore italiano são:

  • non si sevizia un paperino, de lucio fulci (1972)

  • profondo rosso, de dario argento (1975)

  • suspiria, de dario argento (1977)

  • zombi 2, de lucio fulci (1979)

  • opera, de dario argento (1987)


como aos outros já fiz referência, aqui ficam algumas palavras sobre o "patinho" de fulci:


o ambiente bucólico de uma pacata aldeia italiana é ensombrado por uma série de crimes brutais. vários rapazes são assassinados num misto de pedofilia com rituais satânicos, e as suspeitas parecem recair sobre a "bruxa" da aldeia, uma megera meio-louca que se dedica a práticas de voodoo. mas, quando um jornalista da cidade se junta a uma turista para descobrir a verdade, esta vem a revelar-se bem mais chocante do que os próprios crimes. non si sevizia un paperino é um dos exemplos mais conseguidos dos inícios do gore italiano. realizado pelo mestre lucio fulci em 1972, este é um dos primeiros filmes em que a morte por mutilação (com imagens explícitas de desmembramentos ou de lâminas que perfuram as cartilagens) passou a ser um veículo para a transmissão do sentimento do horror. mas é também um excelente exercício de suspense misturado com "whodunit", já que a história é plena de sobressaltos e a identidade do assassino só é revelada mesmo na sequência final. para "ajudar à festa", a edição do filme em dvd pela anchor bay oferece-nos pela primeira vez a versão integral e não censurada, respeitando o formato original widescreen 2:35:1 e ainda com o trailer e bio-filmografias do realizador e actores. para os amantes de emoções fortes e do cinema de terror, aqui fica a sugestão de mais um título imprescindível, quase desconhecido entre nós, mas que o próprio dario argento classificou como "um soberbo giallo que é dos melhores filmes de lucio fulci". se isso não é referência mais que suficiente, pelo menos não consigo idealizar outra melhor!

antónio pascoalinho
(genuíno fanático do horror e o homem que levou a troma e jess franco aos écrans da rtp)

publicado por jorge às 03:21
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4 comentários:
De Anónimo a 9 de Julho de 2004 às 21:53
Oi!! Quero dar os parabéns ao blog, está espectacular!! Espero ver um comentário em breve no meu também: parchalex.blogspot.com continua, e aparece!André Louzeiro
</a>
(mailto:andy_22@mail.pt)


De Anónimo a 8 de Julho de 2004 às 21:41
troma na rtp foi uma coisa que francamente nunca esperei ver... Os meus agardecimentos ao homem por trás do feito.

Já agora, o Audition do Takashi Miike também passou o outro dia, e esse sim confesso que foi uma verdadeira surpresa. Se alguém responsável por isso estiver a ler isto, peço muito o resto dos (milhentos) filmes dele...Bananita
(http://americantiger.blogspot.com)
(mailto:c@o.com)


De Anónimo a 8 de Julho de 2004 às 21:20
Excelente artigo este sobre o género gore.

Gostei bastante, sim senhor!

Abraços ao Zombie e também ao António Pascoalinho.Tiago Teixeira
(http://moviesuniverse.blog-city.com)
(mailto:as1530035@sapo.pt)


De Anónimo a 8 de Julho de 2004 às 04:15
"quanto a lucio fulci (...) as versões disponíveis em inglaterra estão todas mutiladas." -- *perfeito*, assim como todo o artigo. nunca é demais a divulgação destes artistas. e quanto ao duckling, deixem-me só dizer: barbara bouchet! :)rodolfo
(http://www.cultsirens.com/)
(mailto:giallo@mania.cs)


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