Quinta-feira, 1 de Julho de 2004

sessão dupla: cabin fever e dog soldiers

cabin fever decalca uma cena fulcral de night of the living dead e uma das personagens de dog soldiers chama-se bruce campbell, o mítico actor de evil dead. são duas entre muitas referências, mas são também, e apenas, curiosidades, private jokes em tom de agradecimento pela inspiração que, décadas depois, ainda mantém o filão vivo.

falo de inspiração, mas também falo de paixão, dedicação e talento. não esqueçamos que em questão estão filmes que feitos com meia dúzia de tostões são obras-primas - ou andam lá perto -, deixando bem claro que as características mencionadas dão sempre melhores resultados que muitos milhões de dólares.

basta meia dúzia de humanos e um local isolado. uma vez criado o microcosmos, é preciso destabilizá-lo. depois de quebrado o equilíbrio, é preciso repôr a ordem natural. esta é a essência de uma fórmula que tem barbas, mas que continua actual e relevante. actual porque representa um processo primário intrínseco ao indivíduo e à sociedade. relevante porque, de tão simples que é, veicula com maior veemência a sua mensagem. não há forma de simplificar a dita fórmula, mas há variadas maneiras de a complicar... no bom e no mau sentido, dependendo se há ou não talento para cobrir a aposta.

pode ser uma cabana isolada na floresta, mas também pode ser um acampamento científico no antártico. pode ser onde se quiser desde que o dinheiro chegue e a povoação mais próxima esteja a milhas de distância, ou seja tão inóspita que é preferível estar entregue aos bichos.

por falar em bichos, vamos lá ver o que é que esta sessão dupla nos reserva. eli roth e neil marshall são dois novatos na realização. terão eles o coração e a cabeça no sítio certo? george a. romero e sam raimi tinham... pois, mas não há muitos como eles!

cabin.jpg
cabin fever (2002)
de eli roth, com rider strong, jordan ladd e joey kern

cabin fever tem a receita escrita no verso da embalagem, mas eli roth, argumentista e realizador, tem mais olhos que barriga e decidiu "elaborar"... acabou com uma mixórdia que sabe a tudo ao mesmo tempo que não sabe a nada. roth deixa-se levar pelo entusiasmo - cabin fever é a sua primeira longa-metragem - e vai experimentado tudo o que lhe ocorre. o filme muda constantemente de tom e intenção: é uma comédia, é um filme de terror, é um tributo, é uma parábola… é tudo, mas aos pedaços. essa heterogeneidade topa-se à distância e o fluir natural das situações perde-se.

o grupo de personagens (a.k.a. carne para canhão) é constituído pelos habituais adolescentes estereotipados e neste cabin fever está condenado a morrer, isolado numa cabana nas montanhas, às mãos de um qualquer vírus devorador de carne. esta premissa serve de pretexto para a mão cheia de cenas gore que são o melhor que o filme tem para promover.

a certa altura apercebemo-nos que a cabana não é assim tão isolada e até há bastante gente por aqueles lados. roth vai introduzindo personagens, na sua maioria elementos cómicos, que são faltas que quebram o ritmo do jogo. ainda assim, uma das faltas mais graves é a forma amadora como roth entrega de bandeja a resolução da sua história no decorrer do segundo acto. se se tivesse concentrado mais na sua premissa e na sua fórmula, talvez não tivesse deixado a descoberto a regra mais básica e delicada de todas. cabin fever é um filme desorganizado, uma amálgama de ideias que num argumento coerente e menos armado em espertalhão teria dado uma boa primeira obra.

fala-se de um tal the box (com data de estreia anunciada para 2005) adaptado por richard kelly a partir de uma história de richard matheson e realizado por eli roth. kelly escreveu e realizou o fabuloso donnie darko e matheson é um conceituado escritor e argumentista com um currículo invejável. pode ser que kelly traga o argumento sólido que faltou a cabin fever e liberte roth para jogar a sério na realização em vez de andar a dar toques.

(4/10)

dog.jpg
dog soldiers (2002)
de neil marshall, com sean pertwee, kevin mckidd e emma cleasby

um esquadrão de soldados britânicos é aerotransportado para as terras altas escosesas numa missão de treino. perderem o jogo de futebol mais importante da década graças a este exercício é o pior que lhes vai acontecer... pensam eles. pouco tempo depois do desembarque tropeçam no capitão richard ryan, líder de uma unidade das operações especiais que ali se encontra - aliás, encontrava - numa missão secreta. ryan está gravemente ferido e é o único sobrevivente da dita unidade. ryan não se descose quanto ao porquê da sua presença no local, mas é bem possível que tenha alguma coisa a ver com os lobisomens que lhes caiem em cima.

ajudados por uma rapariga local, os soldados refugiam-se numa cabana e barricam-se no interior. os lobisomens não cessam as hostilidades; as baixas vão aumentando, as munições vão diminuindo e a situação torna-se crítica. dog soldiers é a primeira longa-metragem de neil marshall e é escrita e realizada por ele. marshall faz tudo como mandam as regras e concentra-se nos seus objectivos. nota-se desde cedo que o realizador está mais inclinado para a acção do que para o terror. os lobisomens passam a ser a variável; substituam-nos por zombies, índios, bandidos, extraterrestres, o que quer que vos ocorra, e o filme continua a ser o que é.

a acção é o mais importante, mas não é gratuita. dog soldiers começa por consolidar as suas personagens dando-lhes dimensão e envolvência. o grupo apresenta a habitual formação eclética, mas apresenta também uma invulgar coesão. o seu desmembramento - e isto pode ser interpretado literalmente! - é tão difícl de aceitar pelas personagens como é pelo espectador. marshall também dedica atenção aos seus lobisomens e dá-lhes um novo visual, mais animal, mais feroz e mais ágil. quando surgem em cgi deixam algo a desejar, mas quando toca a caracterização física, são aterrorizadores.

dog soldiers é entretenimento despretensioso de bom nível. há uma infindável lista de primeiras obras mais prometedoras e mais corajosas. marshall jogou pelo seguro. não há nenhum mal nisso, mas o resultado conseguido com este filme inspira confiança e coragem para voos mais arrojados da próxima vez.

(6/10)
marco

publicado por jorge às 23:41
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1 comentário:
De Anónimo a 2 de Julho de 2004 às 23:13
Alô Marco,

Como o prometido é devido, aqui vai este primeiro contacto.

Acho o blogo simultaneamente divertido e informativo.

Visualmente atraente e com grandes potencialidades.

Oxalá se consiga impôr rapidamente na blogosfera.

Um abraço,

Germanogermano
</a>
(mailto:gcampos@netcabo.pt)


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