Segunda-feira, 21 de Junho de 2004

storytelling

"of this much I'm certain: if you write a good script with a great premise, you'll have a big hit. if you write a bad script with a great premise you'll still make money. but if you write a great script with a bad premise, success is not likely."
jeffrey katzenberg



"those avatars of high culture hold it almost as an article of religious faith that plot and story must be subordinated to style, whereas my deeply-held conviction is that story must be paramount, because it defines the entire work of fiction. all other considerations are secondary—theme, mood, even characterization and language."
stephen king



storytelling é uma palavra inglesa que não tem tradução directa para português. o mais próximo que se arranja é contar histórias. esta lacuna no vocabulário português tem duas causas:

1.em portugal, ninguém sabe contar histórias, portanto, não há necessidade de encher o nosso já extenso vocabulário com um termo que não vamos utilizar;

2.nos países onde esta palavra existe - ou onde reconhecem o seu significado - é uma arte. em portugal a arte está no subtexto das histórias que contamos mal.

em portugal, o subtexto é a génese da criação cinematográfica. em portugal, um filme, antes de ser um filme é sempre um manifesto. há muitos subtextos, alguns avulso, outros agrupados em categorias, sendo que as principais três são a política, a económica e a social. avulso ou integrado numa categoria, ao subtexto é depois sobreposto um texto - ou perderíamos a razão de ser do prefixo sub, o manifesto passaria para primeiro plano e tornar-se-ia óbvio. coisa que em portugal não queremos porque os artistas não podem ser óbvios.

chegamos assim à conclusão que nesta terra um argumento é composto de dois textos: o subtexto e o sobretexto. o equivalente, nos países onde existe o termo storytelling, ao nosso sobretexto é a história. não se pense, no entanto, que são exactamente a mesma coisa. o sobretexto não tem, necessariamente, de ter uma estrutura, um princípio, um meio e um fim, porque serve um só propósito: encher chouriços durante duas horas até que o subtexto seja assimilado pelo espectador - coisa acontece no primeiro quarto de hora, mas deixem lá isso... o importante é reter que em portugal o subtexto tem primazia sobre o sobretexto.

depois vem o enquadramento espacial e temporal desta sobreposição de textos: a guerra colonial. dê por onde der, a obra - o termo filme poderá ferir susceptibilidades - tem de enquadrar a vida dos combatentes ou dos ex-combatentes. às vezes, os fantasmas da guerra colonial também aparecem; talvez seja por isso que tantas vezes ouvimos dizer à saída da sala que "isto é um autêntico terror". ou então não, porque em portugal os fantasmas não são seres sobrenaturais - o que seria interessante! não, em portugal os fantasmas são seres psicológicos. é por isso que nunca os vemos no écran; os seres sobrenaturais não têm lugar no nosso cinema e os seres psicológicos estão escondidos no subtexto.

discutir sobre o que faz o cinema português ser o que é - chamar-lhe um terror é uma falta de respeito para com um género cinematográfico cuja tradição nasceu muito antes de se começar a filmar em portugal - é o mesmo que ir ver um filme português: fala-se, fala-se, fala-se, mas o pouco que se diz é sempre o mesmo e, claro, não se vai a lado nenhum. em portugal há argumentistas e realizadores, mas não há storytellers. se houvesse, filmes como pieces of april, de peter hedges, tesis ou abre los ojos, de alejandro amenábar, estariam a ser feitos em portugal. os valores de produção destas obras - ou de um rol sem fim de exemplos óbvios - são a maior parte das vezes inferiores aos valores de produção aqui praticados.

uma boa história é meio caminho para um bom filme. uma boa história, assim como uma boa canção, é aquela que sobrevive mesmo quando despojada dos artifícios que a adornam. este conceito é, na realidade, mais que um conceito. é um método experimental que visa testar a resistência de uma história e chama-se método da árvore de natal (porque quando passa a quadra natalícia e se arrumam as bolas, as fitas, os anjos, e o resto dessa quinquilharia toda, ou se fica com um belo pinheiro, ou com uma bela merda de plástico).

se a história é boa - e bem contada -, não interessa se é filmada em digital ou em película, se é a cores ou a preto-e-branco, se é mudo ou sonoro... não interessa se os actores saíram todos do actors studio ou do teatro quase amador da bobadela... não interessa - e esta vai ser uma questão polémica! - se os efeitos especiais são da industrial light & magic ou do gajo da comissão de festas da póvoa de lanhoso responsável pelo fogo-de-artifício.

marco

publicado por jorge às 01:21
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