Sábado, 19 de Junho de 2004

tarantino 101: vol.1

bill 2.jpg

tarantino 101. como nos cursos básicos. introdução à neurologia. aprenda a cortar o seu próprio cabelo em apenas 10 passos. querem ser o quentin tarantino? estão no sitio certo. ou se calhar não estão, que se soubesse o segredo não estava aqui sentado sozinho a escrever isto. estava a repor a verdade dos factos com um filme em que o gordon liu arrumava a uma thurman com um braço atrás das costas. ou com os dois.

a obsessão de tarantino com o cinema está vastamente documentada. se me perguntarem talvez até demais. depois de kill bill as listas de influências e referências choveram. só o site tarantino.info lista para aí umas 80. e aposto que não repararam pelo menos numa dúzia. tarantino é um film geek, e depois? já ouviram bem o scorsese a falar dos filmes que o influenciaram a ele? a razão do fascínio à volta das influências do realizador reside, parece-me, na obscuridade dos títulos referidos nas infindáveis sessões de name dropping em que transforma as entrevistas. não ouvimos sturges, ou hawks ou ford. não ouvimos buñuel ou de sica. ouvimos five venoms, lucio fulci, jack hill e sonny chiba. é a vingança dos nerds. e depois há outra coisa. realizadores cinéfilos não faltam, mas quantos construíram um filme inteiro só de homenagens? e o transformaram num sucesso de bilheteira capaz de envergonhar a soma dos homenageados?

claro que há um lado negativo em tudo isto. kill bill vol.1 pode ser um dos filmes mais cool de que há memória em tempos recentes. mas é todo estilo e nenhuma substância. e o facto de constantemente referenciar trabalhos que lhe são superiores também não lhe faz grandes favores. mas a verdade é que a maior parte das pessoas que foram ver o filme não estavam, como eu, a jogar ao "onde é que está o wally" cinematográfico. para a maior parte deles o material é tão fresco como se tivesse saído integralmente da cabeça de tarantino. e até podem ouvi-lo a falar daqueles filmes esquisitos todos nas entrevistas, mas não vão mexer o rabo para os procurar. além disso, quem é que quer ver um filme de artes marciais que não seja falado em inglês? melhor, quem quer um filme seja lá de que género for que não seja falado em inglês?

no entanto kill bill, veja-se com que olhos se vir, é muito mais do que um mero exercício de deejaying cinematográfico. nem seria preciso o volume 2, que trouxe a substância ausente do primeiro e aquilo a que alguns chamaram o toque pessoal (para alguém que respira estes filmes como tarantino o faz, acredito que o vol.1 seja intensamente pessoal). é, de qualquer maneira, mais do que copy/paste, mais do que "olhem como sou cool", uma declaração sincera de amor pelo cinema. por todo o cinema. do mais xunga ao, bem, ao mais xunga. e aqui xunga é apenas uma designação cómoda, não um adjectivo. a qualidade na arte é sempre um conceito discutível. pessoalmente a escolha entre uma produção merchant/ivory e o lo lieh a partir a boca a alguém não me coloca qualquer dúvida. não é que tenha alguma coisa contra o anthony hopkins ou a emma thompson, mas temos de encarar os factos: não duravam 30 segundos contra o lo lieh.

desculpem se me entusiasmei. isto era suposto ser uma introdução de um parágrafo à lista que se segue. o seu propósito ultrapassa-me. começou por ser uma piada numa mailing list e entretanto vieram-ma cobrar. existem dezenas de listas mais exaustivas na net. não tenho os conhecimentos, nem o tempo, e, de qualquer maneira, não era esse o meu objectivo aqui. escolhi quinze filmes que me parecem reflectir uma possível génese do universo de tarantino, limitando-me aos que vi e aos de que mais gosto. vejam-nos religiosamente, e tudo o que encontrarem à volta, e pode ser que também consigam ser o quentin tarantino. se isso não acontecer sairão da experiência enriquecidos pelo visionamento de alguns excelentes filmes. e da próxima vez que virem o kill bill ou reservoir dogs vão talvez vê-los com outros olhos. divirtam-se e não se esqueçam de agradecer ao zombie quando estiverem a receber o óscar por "godzilla e os ninjas enfrentam os mortos-vivos de shaolin na prisão das mulheres canibais".

city on fire, de ringo lam (1987)
tem o chow yun-fat no seu periodo mais carismático em rota de colisão com a namorada por causa do trabalho, e dividido entra a amizade e o dever de policia infiltrado num bando de assaltantes. um clássico menor do cinema de hong kong e o terceiro acto é o reservoir dogs.

battles without honor and humanity, de kinji fukasaku (1973)
talvez o meu preferido entre os filmes que vi sobre a yakuza. épico passado em hiroshima que desmistifica o código moral do crime organizado japonês, que pelos vistos também não sobreviveu à bomba. traições, braços decepados, nenhuma honra, nenhuma humanidade.

dressed to kill, de brian depalma (1980)
o meu candidato para único giallo genuíno feito em território americano. depalma no zénite da sua fase hitchcock rouba liberalmente ao mestre mas com estilo. além disso o michael caine e o dennis franz no mesmo filme é bom demais para passar ao lado.

foxy brown, de jack hill (1974)
foxy brown é sexy, esperta, tem contas para ajustar e, pelos vistos, é cinturão negro em bancos de bar. parece que nos anos 70 dava para esconder uma arma no afro. e vocês nunca viram uma mulher até verem a pam grier neste filme.

paura nella città dei morti viventi, de lucio fulci (1980)
os mortos-vivos, pelo menos os italianos, saem directamente das portas do inferno. e as meninas que não tiverem treinado com o pai mei e forem enterradas vivas são bem capazes de ficar com uma picareta cravada na cara. fulci quando era mau era muito mau, mas poucos chegam aos calcanhares de quando era bom.

os restantes dez títulos serão publicados no vol.2 daqui por um ano. ou se calhar no final da próxima semana.

jorge

publicado por jorge às 03:41
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3 comentários:
De Anónimo a 19 de Junho de 2004 às 21:06
Consta que muita inspiração para o Kill Bill veio do Lady Snowblood (não posso afirmar com certeza, porque ainda não vi), mas a parte do alerta das sirenes foi decalcada de um grande filme de kung-fu chamado Prodigal Son. Senti-me um pouco enganada quando descobri, mas as sirenes do Quincy Jones são tão mais estilosas...Bananita
(http://americantiger.blogspot.com)
(mailto:Bananita@nada.pt)


De Anónimo a 19 de Junho de 2004 às 19:41
Ainda no espírito das homenagens, já aí andam filmes a homenagear o Kill Bill >:) http://www.dvdoutlet.nl/cgi-bin/web_store/web_store.cgi?&xa=2200&item=12614 (http://www.dvdoutlet.nl/cgi-bin/web_store/web_store.cgi?&xa=2200&item=12614)rodolfo
(http://www.shibumi.org/eoti.htm)
(mailto:null@void.nz)


De Anónimo a 19 de Junho de 2004 às 14:46
Apenas duas palavras:
Excleeeeeeeeente!dermot
(http://www.cinephilus.blogspot.com)
(mailto:cinephilus@mail.pt)


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