Segunda-feira, 14 de Junho de 2004

crítica: a better tomorrow III

...

um filme de tsui hark
com chow yun-fat, anita mui e tony leung ka fai
hong kong, 1989 imdb

é uma das imagens icónicas do cinema dos últimos vinte anos: gabardina preta, óculos escuros, um revolver em cada mão e milhares de balas disparadas em slow motion. em 1986 john woo inventou o the matrix. a better tomorrow lançou a carreira do realizador e do actor chow yun-fat, e marcou o inicio de uma parceria que deu ao mundo algum do melhor cinema de acção alguma vez produzido. o sucesso do filme nos mercados asiáticos deu origem a uma continuação logo no ano seguinte, de novo com woo aos comandos, e a esta prequela, realizada por tsui hark em 1989.

pelos vistos mark gor (yun-fat) não foi sempre o gangster ultra-cool que conhecemos no primeiro filme. em 1974, pouco antes da queda de saigão, o jovem mark nunca tinha sequer pegado numa arma e estava no vietname para ajudar o primo mun (leung) a levar o tio (sek kin, o mr. han do enter the dragon!) de volta para hong kong, para longe da guerra. os primos conhecem kit (mui) que parece ter ligações ao mais alto nível que lhe permitem manobrar facilmente na corrupção instalada no país, e não tem qualquer pudor em enfiar um balázio em quem olhar para ela de lado. depois de a verem despachar o que me pareceu ser pelo menos metade do exército sul-vietnamita estacionado na cidade, ambos se apaixonam por ela e rapidamente o trio se torna inseparável. kit ajuda-os a levar o tio para o hong kong, e tudo parece correr bem até aparecer o ex-namorado da menina, que é um sacana impiedoso, e tem pouca paciência para os ver aos três a brincarem aos filmes da nouvelle vague.

parece que tsui hark, que produzira os anteriores dois capítulos da saga, entrou em conflito com john woo por causa da duração do segundo, obrigando-o a reduzi-lo das quase três horas originais para uns mais comerciais 105 minutos. hark produziria ainda the killer para woo mas os dois nunca mais se entenderam. ainda por cima porque quando se começou a falar de fazer uma prequela de a better tomorrow, passada no vietname, hark passou-lhe a perna e decidiu realizar ele o filme (woo acabou por ir para o vietname à mesma e filmar ali o clássico bullet in the head).

mas o filme não ficou mal entregue. tsui hark, não tem só uma distinta carreira de produtor onde, além dos títulos já citados, cabem por exemplo burning paradise ou a chinese ghost story, mas merece crédito por ser um dos mais importantes realizadores de hong kong durante as décadas de 80 e 90, contando no currículo com trabalhos do calíbre de zu: warriors of the magic mountain, once upon a time in china e o sublime peking opera blues. nos últimos tempos pode ter escorregado um bocado (ainda estou a tentar esquecer o suplicio do black mask 2), mas toda a gente tem fases más, e em 1989 o homem estava definitivamente em alta.

nas suas mãos a better tomorrow III está bem longe do universo habitual de john woo. o foco central do filme é o romance, centrado no triângulo amoroso de mark, mun e kit e não a camaradaria heróica dos capítulos anteriores. no fundo o que temos aqui é um drama amoroso com tiros pelo meio. muitos. kit é também uma verdadeira mulher de armas, protagonizando a maior parte das sequências de acção do filme, e é ela que ensina mark a disparar um revólver e lhe oferece os óculos escuros e a gabardina que se acabariam por transformar na sua imagem marca. a sua personagem seria impensável no cinema de testosterona em overdrive de woo. hark traz também também uma sensibilidade política até então ausente da série, utilizando saigão no final da guerra, em estado de sítio e com a população desesperada para abandonar o país, como metáfora para o receio que na altura se vivia em hong kong com a aproximação de 97 e a entrega do território à china. numa cena um personagem enfrenta sozinho um tanque trazendo ecos do massacre de tiananmen, ocorrido pouco antes da rodagem. infelizmente estas características acabaram por funcionar contra o filme, valendo-lhe o desprezo colectivo dos fãs da série. e isso faz algum sentido porque tirando o título, e o nome da personagem de chow yun-fat, não existem realmente muitos pontos de contacto.

visto isoladamente, no entanto, a conversa é outra. hark demonstra mais uma vez um exímio sentido visual, criando momentos extraordinários de cinema, e conseguindo transmitir na perfeição as complexidades da época histórica que retrata. para isso contribui também bastante a fantástica cinematografia de horace wong (que faria de seguida bullet in the head) e a dimensão épica do filme é perfeitamente sublinhada pela banda sonora de lowell lo. o trio de protagonistas é excelente, com chow yun-fat a adicionar uma carga de romantismo e ingenuidade ao jovem mark ausente dos capítulos anteriores, e anita mui (tragicamente desaparecida o ano passado) a balançar perfeitamente a complexa kit, entre apaixonada, frágil, terna e afinada máquina de matar.

infelizmente a coisa não é isenta de problemas, com uma narrativa pouco regular e personagens que parecem não estar totalmente desenvolvidos. o esboço a traços largos, por exemplo, do vilão interpretado por saburo tokito acaba por invalidar completamente o sentimento de honra e respeito entre inimigos que o realizador tenta criar no confronto final. as sequências de acção são todas excelentes mas sairiam provavelmente favorecidas se não estivessem tão presas ao "estilo woo". porque esse é só um e hark não tem maneira de lhe chegar aos calcanhares nessa área. o que não quer dizer que não estejam, apesar disso, ainda muitos quilómetros acima do que estamos habituados na ver nas produções de hollywood. sim, mesmo dessa em que estão a pensar.

a better tomorrow III é um filme de muitas virtudes e alguns defeitos. se tivesse sido produzido fora da série acredito que seria visto hoje em dia como um clássico menor do cinema de hong kong. carregando o pesado legado de um dos mais seminais filmes de acção de sempre não tinha maneira de sair a ganhar. pessoalmente acho que está muito longe de merecer o desdém que lhe é votado. pode não ter pés para encher os sapatos dos seus predecessores, mas caraças, é o jules et jim com uma m-16 em cada mão... o que é que há para não gostar?

(7/10)

jorge

publicado por jorge às 03:06
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