Sexta-feira, 28 de Maio de 2004

crítica: the osterman weekend



um filme de sam peckinpah
com rutger hauer, john hurt, craig t. nelson e meg foster
</b>estados unidos, 1983 imdb

sam peckinpah pode ter sido responsável por obras primas como the wild bunch, straw dogs, ride the high country ou the ballad of cable hogue (entre outros que, não fazendo história, estão bem próximos do coração do zombie como bring me the head of alfredo garcia e the killer elite), mas no final dos anos 70 as suas lendárias guerras com os estúdios, e o seu não menos lendário consumo de álcool e drogas, tinham-lhe valido um lugar no desemprego. no inicio da nova década o realizador, aclamado como uma das figuras maiores da história do cinema, estava reduzido a trabalho de segunda unidade para o seu amigo don siegel. the osteman weekend surgiu-lhe como a oportunidade que precisava para relançar a sua carreira. peckinpah detestava o livro em que o filme era baseado (escrito por robert ludlum), mas estava decidido a mostrar que conseguia realizar um thriller comercial dentro dos parâmetros dos estúdios.

o filme centra-se em john tanner (hauer), um jornalista de televisão cujo programa face to face se dedica e desmascarar escândalos políticos. tanner é informado pelo director da cia (burt lancaster) que os seus três melhores amigos são espiões ao serviço do kgb. a cia, sob as ordens do agente fassett (hurt), instala um sofisticado sistema de vigilância em sua casa, onde os amigos vão passar o fim de semana, e incumbe tanner de os desmascarar e os tentar convencer a tornarem-se agentes duplos.

os temas aqui são a paranóia e o voyeurismo, personificados pela televisão e pela vigilância da cia. todas as conversas, tudo o que acontece, está sempre a ser observado, ouvido, registado por alguém. são temáticas próximas a peckinpah que era de uma paranóia extrema, ao ponto de ter reuniões na casa de banho com a porta fechada, e as torneiras todas a correr, e de ter instalado microfones escondidos no quarto da namorada. esta proximidade ao material não deixa de ser curiosa tendo em conta que o filme é geralmente visto como um projecto atípico e impessoal do realizador.

the osterman weekend tem a dúbia honra de ser considerado por alguns (que provavelmente nunca viram o convoy) o pior filme de sam peckinpah. o filme sofre de vários problemas, dos quais o maior é sem dúvida o guião de alan sharp (autor do excelente night moves) que na tentativa de comprimir o labiríntico romance de ludlum acaba por deixar abertos vários buracos. a irritante banda sonora de lalo schifrin também não ajuda muito.

por outro lado as interpretações são uniformemente excelentes. rutger hauer, no seu primeiro papel de protagonista num filme americano, suporta eficazmente o filme e mostra aqui que a sua carreira podia ter sido bem diferente das profundezas onde entretanto foi parar (e deus o guarde pelo remake americano de zatoichi, blind fury). john hurt é soberbo no complexo papel de fassett, um homem destruído e em guerra contra o sistema para o qual trabalha, tal como o próprio peckinpah. burt lancaster, meg foster e craig t. nelson prestam um suporte forte aos protagonistas, só chris sarandon e dennis hopper se vêm reduzidos a um papel quase decorativo.

a direcção de fotografia de john coquillon, colaborador habitual do realizador, é magnífica. as sequências de acção, com o slow motion rodado nos habituais 96 frames por segundo, são exemplares, e apesar de uma ou outra vez parecerem um caso de "tomem lá, pronto, era disto que vocês estavam à espera" acabam por não ser menos excitantes por causa disso.

the osterman weekend seria o último filme de sam peckinpah. no ano seguinte os excessos todos que cometeu durante a sua vida juntaram-se e passaram-lhe uma rasteira. não será talvez o mais extraordinário canto do cisne da história do cinema, mas merece muito mais atenção, e respeito, do que a sua reputação duvidosa vos possa fazer pensar.

(7/10)
jorge

nota: para não variar sam peckinpah acabaria por ser despedido pelos produtores e impedido de supervisionar a montagem final do filme. a sua versão original está pela primeira vez disponível em home video num excelente dvd editado em inglaterra e nos estados unidos.

publicado por jorge às 03:42
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