Sexta-feira, 28 de Maio de 2004

crítica: secret window



um filme de david koepp
com johnny depp, john turturro, maria bello e charles s. dutton
estados unidos, 2004 imdb

durante um extenso período da minha vida, stephen king foi o escritor mais assíduo da minha mesa de cabeceira. carrie, misery, the shinning e o indispensável danse macabre - que ainda recordo como uma das obras de referência sobre o big bang do universo fantástico na literatura, no cinema e até na rádio – são alguns dos incontornáveis títulos que moldaram a minha massa cinzenta...

(sim, isto explica muita coisa... sem dúvida.)

nos últimos anos, stephen king tem primado pela ausência nas minhas listas de leitura, excepção feita a um livro absolutamente essencial (pelo menos para quem escreve) chamado on writing, escrito no período de convalescença do escritor depois do acidente que quase o vitimou. este afastamento foi puramente casual; tenho consciência de um certo declínio imaginativo de king, mas não foi por isso que o deixei de ler. as últimas histórias que li denunciavam já um certo cansaço, mas king nunca me desapontou no que toca a meter palavras no papel; as histórias poderiam já não ser a oitava maravilha do mundo, mas king é um contador de histórias nato e se porventura perdeu o dom de as inventar, o dom de as escrever manteve-se intacto. estes parágrafos foram a introdução ao texto que se segue e a minha vénia ao escritor que me inspirou a escrever.

dito isto, escusado seria dizer que a curiosidade de ver as suas histórias adaptadas ao cinema é sempre grande. seja o carrie, seja o the mangler, dê por onde der, tenho de ver... stanley kubrick, brian de palma, george a. romero, john carpenter, rob reiner ou tobe hooper, são alguns dos realizadores que levaram as obras de stephen king ao grande écran. uns fizeram-no bem, outros nem por isso... no segundo caso, nada há a fazer senão lamentar. chegamos a david koepp, que adaptou o jurassic park para o steven spielberg, escreveu o panic room para o david fincher, e adaptou e realizou o stir of echoes a partir de um romance de richard matheson. não é muito, mas é suficiente para suscitar um mínimo de interesse ao ver o seu nome na realização da mais recente adaptação de uma história de king; mas o que realmente eleva a curiosidade neste caso é a dupla de actores principais: johnny depp e john turturro.

secret window, secret garden – o filme chama-se apenas secret window - é uma das quatro novelas do livro four past midnight e, como se tornou recorrente na obra de stephen king, um escritor é protagonista dos acontecimentos. depois de traído pela mulher e em pleno processo de divórcio, mort rainey refugia-se numa cabana isolada na floresta junto a um lago. há uma cidade próxima que frequenta apenas quando a necessidade de mantimentos aperta. passa a maior parte do tempo a dormir vestido no sofá da sala, mas entre sestas luta contra um bloqueio criativo que o impede de avançar o seu novo livro, fala consigo mesmo e desabafa com o cão. certo dia, um estranho bate-lhe à porta e acusa-o de lhe ter roubado uma história. depois da acusação o estranho apresenta-se, chama-se john shooter, abandona o local e deixa-lhe um manuscrito da sua história em tudo igual à de rainey, que se recusa a aceitar a acusação de plágio. shooter regressa, torna-se violento e a situação começa a ganhar contornos negros: o cão é morto, a casa da ex-mulher é incendiada e por aí fora.

secret window não é, de todo, tempo perdido. antes pelo contrário; se a ideia é passar duas horas entretido, o filme de koepp assegura isso e ainda nos brinda com a soberba interpretação de johhny depp. rainey é mais uma daquelas personagens excêntricas a que é difícil dar vida sem as deslocar do mundo e das personagens que a rodeiam. esta dificuldade deita muitas vezes a perder a coerência das relações e estabelece um fosso entre os níveis de comportamento das personagens que não é possível ignorar. não é o caso. depp dá a rainey uma existência real, credível e, mais incrível, sem se notar um mínimo de esforço. depois do pirata jack sparrow, depp volta a criar mais uma personagem digna de registo. turturro está igual a si mesmo e intocável. a adaptação/realização de koepp é eficaz, mas receio que secret window, secret garden seja uma daquelas histórias que enriquece mais quando lida e trabalhada pela imaginação do leitor.

(6/10)
marco

publicado por jorge às 03:29
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