Quinta-feira, 20 de Maio de 2004

crítica: le rouge aux lèvres

Poster2.jpg

um filme de harry kumell
com delphine seyrig, andrea rau, john karlen e danielle ouimet
bélgica, 1970 imdb
aka daughters of darkness

há quem diga por aí que le rouge aux lèvres é o mais belo filme de vampiros alguma vez feito. também há quem diga disparates ao ritmo de uma metralhadora, mas não me parece que seja o caso. digo que não me parece porque, se por um lado, não vi todos os filmes de vampiros que se fizeram, por outro, este filme de harry kumell é, sem sombra de dúvida, um dos mais belos que já vi (com ou sem vampiros).

alguns de vocês perguntarão «então e francis ford coppola's bram stoker's dracula?»... okay, acreditem, gosto muito desse filme, mas é tão pomposo quanto o título (e pompa não é beleza). le rouge aux lèvres é de uma subtileza extrema, onde nada é gratuito, do espantoso guarda-roupa à nudez explícita, e nada é supérfluo. não esqueçamos também o desequilibrado elenco do filme de coppola; de um lado temos tom waits a fazer o que um génio faz e do outro temos keanu reeves a fazer o que um pé-de-cabra faz (que é como quem diz: estragos). neste campo, le rouge aux lèvres não tem buracos. mais ou menos experientes, os actores brindam-nos com interpertações soberbas. delphyne seyrig, em particular, é memorável. igualmente memorável: a fotografia, os cenários, o guarda-roupa... tudo orientado para a construção de um ambiente de perversão e decadência ocultos pelas aparências sumptuosas e o lirismo aristocrático. feitas as contas, é mais fácil encontrar similaridades com os filmes da hammer do que com qualquer outra linhagem do género.

a história decorre nos anos 70 e centra-se em dois casais hospedados temporariamente num opulento e solitário hotel à beira-mar na cidade de ostende (bélgica). o primeiro casal a chegar é constituído por stefan e valerie, recém-casados e a caminho de inglaterra para transmitir a notícia à mãe dominadora de stefan. o segundo é composto por uma condessa húngara, elizabeth bathory, e a sua protegida e companheira, ilona (é óbvio quem é vampiro e quem não é). à medida que as relações se estreitam e crescem de intensidade entre os quatro, a cidade é assolada por uma série de misteriosas mortes de jovens raparigas, encontradas sem um gota de sangue nas veias. o fascínio de stefan por estas mortes revela a sua personalidade sádica e fragiliza a sua relação com valerie; relação esta já abalada pelas constantes desculpas de stefan para não contar à mãe sobre o seu casamento. a condessa elizabeth e ilona aproveitam a oportunidade e jogam os trunfos que ditarão o trágico fim deste jogo de sedução e de morte.

le rouge aux lèvres é um filme de vampiros, mas não é um filme de terror (ou talvez seja, mas convencional não é de certeza). não há caninos pontiagudos, ninguém se transforma em morcego e o sangue que se vê não é suficiente sequer para uma imperial de 20 cl. em contrapartida, uma das pedras basilares do mito do vampiro, a sexualidade, é recuperada para primeiro plano. não só isso, como é também reconvertida num latente contexto gay/lésbico. a sensualidade transbordante do filme alcança vários picos eróticos, mas nunca descai para a exploração sexual gratuita das situações ou dos corpos. mesmo o olhar sobre a imortalidade do vampiro é feito de outra perspectiva, focando-se mais na perseguição da beleza eterna; a propósito, a condessa húngara elisabeth bathory é uma personagem histórica real a quem se atribui a morte de mais de cem jovens raparigas, em cujo sangue se banhava acreditando que assim se manteria eternamente jovem.

le rouge aux lèvres é um irrepreensível art film, um desafio intelectual instigado pela beleza, o desejo e a sedução. o seu ritmo hipnoticamente lento e o seu visual idílico revestem-no de um apelo sussurrante impossível de resistir. dá vontade de dizer: primeiro estranha-se, depois entranha-se. inesquecível mesmo que se viva eternamente.

(8/10)
marco

publicado por jorge às 15:58
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