Terça-feira, 18 de Maio de 2004

crítica: van helsing



um filme de stephen sommers
com hugh jackman, kate beckinsdale e richard roxburgh
estados unidos, 2004 imdb

espero que o chão se abra e engula stephen sommers. se um dia, como dizia travis bickle, uma grande chuva vier para lavar toda a porcaria da superfície da terra, tenho a certeza absoluta que van helsing, e o seu realizador, serão os primeiros a ir na enxurrada. com a religião não se brinca.

não que estivesse com grandes expectativas. afinal estamos a falar do mesmo realizador que pegou num dos mais poéticos horrores clássicos da universal e o transformou num monte de merda fumegante protagonizado pelo brendan fraser. mas drácula, o monstro de frankenstein e o lobisomem juntos no mesmo filme eram uma perspectiva à qual não podia resistir (afinal bride of frankenstein é o meu filme preferido). fui à espera do pior e o que é que vos posso dizer? era pior.

o filme começa a preto e branco, naquilo que é uma óbvia tentativa de prestar "homenagem" aos velhos clássicos. e a ver pelas duas horas que se seguem, o conhecimento que stephen sommers tem dos clássicos resume-se a isso: eram a preto e branco. e a melhor homenagem que lhes podia ter prestado era ter ficado quieto.

van helsing (jackman) é um caçador de monstros profissional ao serviço do vaticano. quando o encontramos está em pleno combate com mr. hyde em paris. não o mr. hyde do clássico romance de r. l. stevenson, o mr. hyde do league of extraordinary gentlemen. ou seria o shrek? parecia o shrek... terminada esta missão o próximo destino é a transilvânia para travar os planos de drácula (roxburgh), que parece que metem o monstro de frankenstein, lobisomens digitais e uns ovos do alien (não perguntem).

vestido de vampire hunter d, armado pelo q do vaticano com o mais avançado equipamento da época (que inclui uma besta que dispara rajadas de setas) e ajudado por uma cigana kung-fu (beckinsdale) que conhece pelo caminho, este van helsing não podia estar mais longe do personagem que edward van sloan interpretou no original da universal ou peter cushing popularizou nos filmes da hammer (que fazem aqui sentir também a sua influência, a ver pelos decotes). o van helsing de sommers é um caçador de recompensas, um homem de armas, não de livros. claro que cushing, apesar de ter 45 anos quando interpretou o personagem pela primeira vez, não precisava de ir a correr esconder-se atrás de um duplo digital cada vez que o argumento lhe exigia uma cena de acção.

também no campo dos vilões qualquer semelhança com os supostos homenageados é fruto do acaso. o drácula de roxburgh não tem a suavidade europeia de lugosi ou a ferocidade carnal que christopher lee lhe conferiu. é um vilão de trazer por casa completo com sotaque da tanga e a ambivalência sexual dos vampiros de anne rice. o monstro de frankestein, que nas mãos de karloff foi um dos grandes personagens trágicos da história do cinema, é uma coisa amorfa que passa o tempo a fugir e a gritar (ficamos também a saber que os dotes de costura do dr. frankenstein deixavam um bocadinho a desejar). os lobisomens são criações digitais com menos profundidade dramática, e toda a ameaça, do mr. potato head do toy story.

o guião, também da autoria de sommers, é um risível amontoado de sequências de acção sem qualquer noção de ritmo narrativo. a mitologia dos personagens é reinventada sempre que dá jeito, provavelmente porque dá muito trabalho respeitar coisas complicadas como o facto de os lobisomens se transformarem quando está lua cheia. o nível de inteligência do público está nivelado pelos seis anos de idade. uma carruagem cai num precipício e explode. uma carruagem. há uma referência a um telegrama do vaticano. tendo em conta que o filme se passa na penúltima década do séc. xix estranhei que não tivesse sido um e-mail. e depois há a cena final. na altura em que estamos a pensar que a coisa já não pode ficar pior.

a direcção artística e a fotografia armam ao estilizado mas o design gótico não tem imaginação e o filme é todo azul. a banda sonora de alan silvestri fez-me querer romper os tímpanos com uma caneta. podia continuar por mais vinte parágrafos mas acho que já perceberam a ideia. prefiro enrolar-me em arame farpado e rolar pelo chão sobre cacos de vidro.

(0/10)
jorge

publicado por jorge às 02:17
link do post | comentar | favorito
|
1 comentário:
De Anónimo a 19 de Maio de 2004 às 05:19
eu tb fui ver o filme... mal empregado dinheiro!!
o filme é uma merda, uma ofensa a qualquer pessoa que goste de cinema ou de terror, ou de ambos!!
http://wordistramoco.blogs.sapo.ptTó Boinas
</a>
(mailto:gothikdraven@sapo.pt)


Comentar post