Segunda-feira, 15 de Março de 2004

crítica: anything else

a tarte queixava-se menos

um filme de woody allen
com jason biggs, christina ricci e woody allen
estados unidos, 2003 imdb

suponho pelo material promocional de anything else que woody allen não deve ser considerado uma comodidade interessante para a dreamworks. quer no trailer quer nos cartazes apenas os mais atentos conseguirão descortinar as letras pequeninas "written and directed by woody allen". além de este tratamento daquele que é um dos últimos grandes autores americanos (e que, com altos e baixos, nunca deixou de ser interessante) ser, no mínimo, questionável, o público teenager que esta publicidade tenta atrair deve ter tido uma grande surpresa. permitam-me estragar só um bocadinho a surpresa e dizer-vos que ninguém fode uma tarte neste filme.

jerry falk (biggs) é um escritor de comédia, residente em nova iorque, e a vida não lhe está a correr muito bem. a sua carreira não arranca, se calhar por causa do agente (danny devito) que insiste em vender o seu trabalho como se tratasse de pronto-a-vestir, e a namorada (ricci), que é uma neurose ambulante e não tem sexo com ele há seis meses, convidou a mãe para viver lá em casa. e, claro, como este é um filme de woody allen, o psiquiatra também não é uma grande ajuda. é neste ponto da sua vida que conhece dobel (allen), um professor do ensino secundário que está tentar iniciar-se na escrita de comédia. o homem mais velho acaba por se tornar o seu mentor e por convencê-lo que uma parte da solução de todos os seus problemas é comprar uma arma automática.

sou um grande fã de woody allen e ainda não vi nenhum filme dele que achasse genuinamente mau. dito isto de há alguns anos para cá a estreia do seu filme anual deixou de me trazer a excitação de outros tempos. do seu trabalho mais recente posso dizer que gostei muito de sweet and lowdown (99) e de deconstructing harry (97), mas achei os últimos três filmes menos interessantes. por isso fui adiando a minha ida ao cinema para ver este anything else. quer dizer, o trailer e o cartaz não fizeram nada para me tranquilizar, e ainda estou traumatizado da última vez que vi o jason biggs e a christina ricci no mesmo filme. foi portanto com alguma surpresa que cheguei à conclusão que, apesar dos seus problemas, este é provavelmente o melhor allen que vi desde harry.

se não é um clássico a culpa pode, principalmente, ser atribuida aos dois protagonistas. não que estejam mal mas falta-lhe o peso e a maturidade necessários para desempenharem convicentemente os seus papeis. parece-me mais ou menos óbvio que o filme foi escrito com personagens mais velhos em mente. há cenas que simplesmente não fazem sentido com um casal tão jovem, por muita onda que tenham. no entanto dão, durante a maior parte filme, conta do recado. o maior problema são as cenas em que biggs fala directamente para a câmara, à alvy singer no annie hall, que parecem sempre forçadas, mas isso não é suficiente para estragar a experiência. durante a maior parte de anything else, por incrível que pareça, o rapaz da tarte consegue ser um alter-ego convincente para woody allen. por outro lado os secundários são deliciosos de ver. stockard channing (no papel da mãe de ricci) e danny devito estão ambos fantásticos e allen, que acaba por passar quase tanto tempo no écran como os protagonistas, liberto de ter de ser o centro da acção, está à altura dos seus melhores tempos, dispensado pérolas de comédia a um ritmo que é necessário um segundo visionamento para as apanhar a todas.

woody allen está a chegar aos 70 anos e aqui, no papel do mentor do jovem falk, dispensa algumas "words of advice for young people". a comédia americana fazia bem ouvir estes conselhos. durante os últimos 20 anos, pelo menos, contámos com o seu filme anual mas um dia isso vai acabar. e eu não vejo ninguém, assim de repente, que possa carregar o testemunho. claro que o filme podia ser melhor, principalmente com um allen mais jovem e talvez diane keaton nos papeis principais. mas para isso podem sempre ver o annie hall. está nos videoclubes.

(6/10)
jorge

publicado por jorge às 13:02
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1 comentário:
De Anónimo a 15 de Março de 2004 às 19:36
E verdade, Woody Allen é um dos grandes escritores do nosso tempo e isto reflecte-se nos seus filmes. Também é verdade que os últimos anos não lhe tenham sorrido em questão cinematográfica, mas um filme de Woddy Allen nunca é um filme mau. Pode é ser menos bom. Este Anything Else é um destes casos; Hollywood Ending até foi um bom exercício de Allen; mas este ANything Else deixou muito a desejar. Muito também por culpa dos dois actores principais, demasiado novos para os papéis. E pessoalmente, não consigo ver o Biggs num papel respeitável depois de cenas com tartes. É pena. Ou não. Mas Anything Else não deixa de ser um filme a ver. Nem que seja para pensar um pouco. Que também faz falta às vezes né. &/10O Panda do Havai
(http://www.opandadohavai.blogspot.com)
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