Domingo, 8 de Fevereiro de 2004

crítica: zigzag

o rapaz da loiça

um filme de david s. goyer
com john leguizamo, sam jones III, oliver platt, natasha lyonne e wesley snipes
estados unidos, 2002 imdb

zigzag (jones) tem uma vida lixada. não lhe bastava ter nascido autista, tem um pai agarrado (snipes) que lhe dá porrada, trabalha o dia inteiro a lavar pratos num restaurante cujo dono (platt) é uma besta e o seu único amigo (leguizamo) está a morrer com cancro. pior que tudo isso, zigzag tem 15 anos e ainda nunca ninguém lhe falou dos pássaros e das abelhas.

quando o pai lhe exige 200 dólares de renda para não o pôr fora de casa zigzag recorre à sua extraordinária capacidade para fixar números e rouba 9000 dólares do cofre do patrão. ao saber da história o seu amigo singer decide ajudá-lo a devolver o dinheiro mas o pai já o utilizou para pagar as suas dividas a um agiota. pelo meio há ainda uma puta com um coração de ouro (lyonne), a constatação de zigzag que as mulheres não têm pila, um ex-elemento dos bros, e cenas do puto a andar de bicicleta em slow motion que duram para aí umas quatro horas.

david s. goyer tem feito carreira como argumentista a adaptar banda desenhada, sendo responsável pelos guiões da série blade, do soberbo dark city e do próximo batman. das suas mãos saiu também a adaptação televisiva de nick fury, protagonizada pelo inimitável david hasselhoff, cujos responsáveis, se houvesse justiça no mundo, teriam sido arrastados sobre uma mistura de pregos ferrugentos, cacos de vidro e arame-navalha alemão antes de serem alinhados contra uma parede e fuzilados. zigzag marca a estreia de goyer como realizador e nesse aspecto, apesar de um ou outro momento bem conseguido, revela-se um trabalho sem brilho e pouco inspirado. percebe-se que procurou dar ao filme algum estilo em termos visuais mas a melhor ideia que teve foi pôr o puto a lavar pratos em slow motion. é verdade, estamos na presença de um verdadeiro peckinpah dos lava-loiças.

bom, pelo menos se o tipo ganha a vida como argumentista, o guião deve ser bom certo? vou colocar as coisas desta forma: em termos de verosimilhança esta história está a um passo de se tornar uma novela da tvi. a premissa até é interessante mas o número de improbabilidades e clichés que recheiam o seu desenvolvimento são suficientes para deitar abaixo pelo menos quatro filmes. porque é que o puto tinha de ser deficiente? porque é que o amigo tinha de ter cancro? e a amiga tinha de ser puta? porque é que os autistas nos filmes têm sempre um tipo qualquer de super-poder? onde é que estavam as irmãs ceguinhas separadas à nascença?

o único trunfo que zigzag traz na manga são os actores, que quase conseguem sobreviver ao material. leguizamo, snipes e lyonne estão todos excelentes e oliver platt é divertido, numa performance ridiculamente exagerada. até luke goss (o tal que fez parte dos bros) é devidamente sleazy no papel do agiota gerente do clube de strip. o elo mais fraco aqui é o jovem sam jones cujo desempenho no papel principal se vai tornando progressivamente irritante ao ponto de, quando a certa altura do filme o vemos à beira da estrada a ver passar os carros, ter dado por mim a pensar que o que era fixe era ele ser atropelado.

na capa do dvd de zigzag vem uma citação do über-geek pote de banha harry knowles (aintitcool.com) que o menciona na mesma frase que "melhor do ano". é o tipo de coisa que diz menos sobre o filme do que sobre as opiniões do sobre-excitável sr. knowles.

3/10
(pelo trabalho dos actores e pela presença de abraham benrubi, o verdadeiro e único kubiak)
jorge

publicado por jorge às 12:30
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crítica: the rules of attraction

estas regras não me atraem


um filme de roger avary

com james van der beek, shannyn sossamon e ian somerhalder

estados unidos, 2002
imdb



the rules of attraction é uma adaptação escrita e realizada por roger avary (killing zoe) a partir de um romance de bret easton ellis (american psycho). mistura comédia e drama numa história que lida vagamente com a vida num campus universitário americano durante os anos 90.



sean bateman (van der beek) vende droga, vai a festas e dorme com todas as miúdas que lhe aparecem à frente. no dia em que decide finalmente ir a uma aula encontra lauren hynde (sossamon) que lê livros sobre doenças venéreas como forma de se manter virgem para o namorado de férias na europa. após uma curta conversa sean fica convencido que é ela a autora das cartas de amor anónimas que tem recebido no seu apartado postal. entretanto numa festa conhece paul denton (somerhalder), que é gay e dá saltos na cama em cuecas ao som do "faith" do george michael. a sério. claro que paul quer dormir com sean, que entretanto se está a apaixonar por lauren, que é ex-namorada de paul (de quando ele ainda não era gay, certamente) e lauren começa a pensar que a virgindade não tem tanta piada como tinha antigamente, o namorado está na europa e o sean está ali ao pé. e vão todos a muitas festas e consomem muitas drogas e fodem com toda a gente menos uns com os outros e têm diálogos cool que não querem dizer nada. e a uma dada altura existe uma cena com o james van der beek na sanita a limpar o rabo.



roger avary co-escreveu o pulp fiction com quentin tarantino e este é o seu segundo filme como realizador. depois do miserável killing zoe e disto acho que ficámos a saber quem era o cérebro nessa parceria. à falta de história, e de personagens com os quais o público se preocupe minimamente se vivem ou morrem, avary enche o filme de floreados técnicos de realização e edição que não levam a lado nenhum e que parecem destinados apenas a enfatizar que estamos na presença de um realizador moderno e com onda. com uma visão, como se tornou tão popular dizer nos últimos anos. o filme anda para trás e para a frente (por vezes literalmente com a imagem a recuar no écran) mas nunca chega a lado nenhum. pelo meio safa-se um brilhante resumo das férias de victor (kip pardue) na europa e um split-screen na manhã do encontro entre sean e lauren que, sendo um artificio técnico totalmente inútil ao filme, é inegavelmente sacado com estilo.



os actores fazem o que podem com o material e conseguem pelo menos evitar parecer totalmente ridículos durante a maior parte do filme. os personagens que interpretam são mais finos do que papel e movimentam-se apenas ao sabor dos caprichos estilísticos do filme. e como este é um filme com muita onda, faz questão de lhes atirar com todas as cenas “chocantes” de que se consegue lembrar. vejam o van der beek a cagar! vejam-no a mijar nas calças! vejam o suicídio da miúda da cantina! vejam o ian somerhalder a bater uma! vejam a shannyn sossamon a ter sexo com um gajo que a meio lhe vomita em cima! vejam a imagem a andar para trás! vejam a imagem a andar outra vez para trás! é isso miúdos, este filme está muito à frente! reparem, a ficha técnica também anda para trás!


será possível fazer um filme sobre nada? os personagens de rules of attraction mexem os lábios e emitem sons mas em nenhum momento articulam palavras que mereçam ser ouvidas. quando o filme termina, deixando uma frase cortada a meio, não me podia importar menos com o que ficou por dizer. enquanto a ficha técnica rolava de trás para frente imaginava a minha vida realizada por roger avary. a recuar rapidamente até ao momento em que decidi ver este filme. até a uma altura em que tivesse de volta as duas horas que perdi com ele.



3/10
(pela shannyn sossamon, que se deus existisse seria a mãe dos meus filhos, pelo resumo das férias do victor e pelo cameo do paul williams como médico das urgências)

jorge

publicado por jorge às 11:27
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Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2004

blax is beautiful

pam grier rules!



dez faixas afroliciosas de quando os homens eram homens, as mulheres não aturavam merdas de ninguém e o cinema tinha soul. a minha lista das dez melhores canções de filmes blaxploitation de sempre.



1.bobby womack across 110th street (across 110th street, 1972)

2.isaac hayes theme from shaft (shaft, 1971)

3.curtis mayfield pusherman (superfly, 1972)

4.marvin gaye trouble man (trouble man, 1972)

5.millie jackson love doctor (cleopatra jones, 1973)

6.curtis mayfield superfly (superfly, 1972)

7.willie hutch brothers gonna work it out (the mack, 1973)

8.james brown down and out in new york city (black caesar, 1973)

9.curtis mayfield freddie's dead (superfly, 1972)

10.millie jackson hurts so good (cleopatra jones, 1973)



jorge

publicado por jorge às 07:19
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Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2004

porque gosto do ron jeremy

who's your daddy?

gosto do ron jeremy não pelo carisma, simpatia ou sentido de humor. não invejo o seu kung fu, o tamanho da sua pila, ou os quase 2000 filmes porno em que participou desde o final dos anos 70. o não ter bem a certeza mas estimar ter tido sexo com cerca de 4000 mulheres é para mim indiferente. o facto de ter transcendido um género marginal para se transformar num ícone pop passa-me ao lado; não distingo o seu cameo no rules of attraction da sua participação especial no world's biggest anal gang bang, as cenas em que contracenou com robert deniro daquelas que fez com a christy canyon.
sei que toca piano clássico e violino e que tem um mestrado em educação de deficientes e isso não me aquece nem arrefece.
podia gostar dele pelos discos que gravou, um dos quais esteve nos tops da billboard 27 semanas, pela sua carreira na stand-up comedy ou por ser o actor com mais participações em videoclips de sempre.
podia muito bem ser por ele conseguir chupar a própria pila.
mas não é.

gosto do ron jeremy porque se ele se consegue safar qualquer gajo se safa.

beingronjeremy.com
jorge

publicado por jorge às 03:20
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Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2004

giallo quer dizer amarelo

o argento é que faz bem

e amarelos são alguns dos filmes de que mais gosto:

tenebre, de dario argento (1982)
la casa dalle finestre che ridono, de pupi avati (1976)
sei donne per l'assassino, de mario bava (1964)
la morte ha fatto l'uovo, de giulio questi (1968)
profondo rosso, de dario argento (1975)
malastrana, de aldo lado (1971)
l'uccello dalle piume di cristallo, de dario argento (1970)
la tarantola dal ventre nero, de paolo cavara (1972)
non si sevizia un paperino, de lucio fulci (1972)
cosa avete fatto a solange?, de massimo dallamano (1972)

os links dão infelizmente para o imdb (não é muito fiável e os comentários dos utilizadores são atrozes mas é o que há). se não fazem a mínima ideia do que estou a falar podem sempre ir aqui.

jorge

publicado por jorge às 15:37
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