Segunda-feira, 28 de Junho de 2004

tarantino 101: vol.2

cá estão, conforme o prometido (e só um bocadinho atrasadas), as últimas dez lições no nosso curso de iniciação a todos os que queiram ser o quentin tarantino. a sua justificação, e a explicação para as suas limitações, estão descritas na introdução que dediquei ao primeiro volume. para impressionar amigos, colegas de trabalho e namoradas/os potenciais. e para roubar à descrição e sem vergonha. porque, como disse t.s. eliot, "os poetas fortes roubam, os fracos imitam."

lady snowblood, de toshiya fujita (1973)
o template original sobre o qual o primeiro volume de kill bill foi construído. mas com uma protagonista mais bonita, que luta melhor e ainda por cima sabe cantar.

executioners from shaolin, de chia-liang liu (1977)
com todo o respeito que me merece o gordon liu, pai mei nunca foi tão bom (ou tão mau) como nas mãos de lo lieh. e quem disse que não havia espaço para desenvolver personagens num filme de kung fu?

charley varrick, de don siegel (1973)
quem é que dizia que o walter matthau conseguia tornar seu um duro escrito para clint eastwood? charley é mais dirty do que harry, mata bons e maus sem problemas de consciência e ainda arranja tempo para dormir com a mulher de jack lemmon.

caged heat, de jonathan demme (1974)
mulheres na prisão, pela mão do respeitável sr. demme em principio de carreira, e o meu favorito entre os que não incluem a pam grier. de qualquer maneira, barbara steele e erica gavin no mesmo filme é a matéria de que são feitos os sonhos do zombie.

à bout de souffle, de jean-luc godard (1960)
godard foi o tarantino dos anos 60. parece que o quentin gosta mais do remake do jim mcbride, mas também ninguém é perfeito.

il buono, il brutto, il cattivo, de sergio leone (1966)
o melhor western. de sempre.

le doulos, de jean-pierre melville (1963)
filme de gangsters existencial pelo realizador que provou que os franceses podiam fazer bem mais do que apenas inventar a designação film noir. pode-se argumentar que melville foi um dos inventores da nouvelle vague mas não lhe vamos levar isso a mal.

hard boiled, de john woo (1992)
john woo e chow yun-fat, reunidos no melhor filme de acção de sempre, depois de em conjunto terem feito the killer que, como toda a gente sabe, também é o melhor filme de acção de sempre.

shogun assassin, de kenji misumi (1980)
filho bastardo, para distribuição internacional, dos dois primeiros capítulos da saga lone wolf and cub, com melhores razões para estar nesta lista do que uma simples piada no final do kill bill: vol.2.

viva chiba! the bodyguard, de tatsuichi takamori (1973)
...and i will execute great vengeance upon them with furious anger, who poison and destroy my brothers; and they shall know that i am chiba the bodyguard when i shall lay my vengeance upon them. alguém tem perguntas?

jorge

publicado por jorge às 18:57
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Quinta-feira, 24 de Junho de 2004

crítica: coffee and cigarettes

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<img alt="coffee_and_cigarettes" src="http://zombie.blogs.sapo.pt/arquivo/coffee_and_cigarettes (196 x 280).jpg" width="196" height="280" border="1" ALIGN="right" HSPACE="10" VSPACE="10"//>

um filme de <B>jim jarmusch</B>
com <B>roberto benigni</B>, <B>steve wright</B>, <B>iggy pop</B> e <B>tom waits</B>
estados unidos, 2003 <A HREF="http://www.imdb.com/title/tt0379217/" TARGET="_blank">imdb</A>

não gosto do benigni e o primeiro segmento de <B>coffee and cigarettes</B> é logo com ele. foi um mau começo, do qual a minha paciência não recuperou, tendo acabado por esgotar-se a meio do filme. a outra metade foi passada na esperança que cada novo segmento fosse também o último. há bons momentos aqui e acolá, mas nada que salve este exercício niilista de jim jarmusch.

a ideia é criar combinações inesperadas de actores e/ou músicos, sentá-los a uma mesa e deixá-los conversar enquanto bebem café e dão umas passas. até aqui tudo bem, parece interessante e é apelativo, mas era bom que algo se dissesse nessas conversas. e não me venham com a treta do costume sobre como, afinal, este é o tipo de conversas sobre nada que toda a gente tem nas pausas para o café. não é. se é, aproveitem depois de o interlocutor se retirar para repensar a vida que levam.

coffee and cigarettes vive à custa do estilo - e nesta área jarmusch não vacila - e da catadupa de nomes que vai desfilando. o exemplo mais óbvio é o frente-a-frente entre iggy pop e tom waits, os dois pesos-pesados do elenco. iggy e waits discutem como terem deixado de fumar lhes dá a liberdade de fumar um cigarro e têm um subtil braço-de-ferro sobre quem tem, ou não, canções na jukebox que ali se encontra. <B>alfred molina</B> e <B>steve coogan</B> têm direito a um dos poucos segmentos onde se diz alguma coisa, mas a mensagem é redundante e tem de ser o humor a salvar a situação. como aliás acontece em todos os outros segmentos onde se tenta dizer alguma coisa de jeito.

<B>(4/10)</B>
<B>marco</B>

publicado por jorge às 19:31
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o zombie não é surdo

hoje é outra vez dia de partilhar a lista dos 10 discos que têm visto mais actividade, em tempos recentes, aqui na cripta do zombie. para os impacientes entre vós, o resto da lista do tarantino está a caminho. eu disse final da semana, não disse?

...

the kleptones present yoshimi battles the hip-hop robots (2004)
herbie hancock death wish (1974)
sluts of trust we are all sluts of trust (2004)
elvis costello north (2003)
vários girls in the garage, vol.9 (oriental special) (2000)
howard tate howard tate's reaction (1969)
vários the limey - ost (1999)
tim booth bone (2004)
broadcast haha sound (2003)
lloyd cole don't get weird on me babe (1991)

publicado por jorge às 14:52
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Terça-feira, 22 de Junho de 2004

o zombie tinha uma coisa para vocês

parabéns ao eduardo madeira, do tronco da teia, que foi o único a identificar correctamente todos os elementos presentes na montagem que encabeça esta página, e ganhou o dvd de little shop of horrors que estávamos a oferecer. obrigado a todos os outros que participaram com menos sucesso, que vos sirva de consolo saber que a vossa vida sexual é provavelmente melhor do que a nossa.

...

1.zombi, morto.
2.richard roundtree, can you dig it?
3.charles bronson, vigilante.
4.pam grier, brown sugar.
5.lee van cleef, mau.
6.barbara steele, irmã de satanás.
7.sho kosugi, ninja.
8.bela lugosi, vampiro.
9.gort, fim do mundo.
10.jim kelly, bad motherfucker.
11.sonny chiba, fabricante de espadas.
12.gunnar hansen, operador de moto-serra.

ou por filmes: gli ultimi zombi, shaft, death wish 3, foxy brown, per qualche dollaro in piu, sister of satan, revenge of the ninja, dracula, the day the earth stood still, black belt jones, the street fighter, the texas chain saw massacre.

o vencedor será em breve contactado por mail para combinar o envio do dvd. para que os outros não fiquem de mãos a abanar, deixamos aqui este importante pedaço de informação: por quanto tempo se manterá o fornecimento eléctrico no caso de uma invasão de zombies.

publicado por jorge às 16:30
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o zombie já viu: oldboy

oldboy

um filme de park chan-wook
com choi min-sik, yu ji-tae e kang hye-jeong
coreia do sul, 2003 imdb

um belo dia, sem qualquer explicação, são raptados. fechados numa cela, disfarçada de quarto de hotel chungoso, com a foto de uma paisagem a servir de janela. longe da vossa mulher e da vossa filha, a vossa única companhia é uma televisão, a vossa única alimentação a mesma merda de fritos chineses todos os dias. durante quinze anos. quinze anos sem contacto humano. quinze anos para pensar o que vão fazer ao cabrão responsável quando conseguirem sair dali.

oldboy foi injustiçado em cannes. recebeu o grand prix mas se houvesse justiça tinha saído do palais des festivals de palma de ouro em punho. não gosto de falar do que não vi, mas isto é claro para mim: por muito que o coração de michael moore esteja no sitio certo, por muito que seja importante ouvir o que tem a dizer sobre o sr. bush, não há maneira de fahrenheit 9/11 como cinema ser melhor que isto.

o filme de park chan-wook, que sucede aos excelentes joint security area e sympathy for mr. vengeance, é uma obra-prima executada com um rigor milimétrico. baseando-se na manga japonesa com o mesmo título, park criou uma tragédia de proporções biblicas, visualmente arrebatadora e emocionalmente esgotante. um épico de vingança violento, perturbante e negro como a noite, assente numa interpretação de choi-min sik, no papel do protagonista dae-su, que é das mais extraordinárias recentemente captadas em celulóide. ao fim dos dez primeiros minutos todos os actores oscarizados da última década deviam esconder-se de vergonha.

existem boas razões para ser mais vago do que é habitual na descrição do argumento. oldboy é um filme mais eficaz a frio, com o mínimo de informação. posso no entanto dizer-vos que o rapto e aprisionamento de dae-su não são mais do que o primeiro patamar na sua descida ao inferno, apenas o primeiro movimento num jogo de xadrez que tem por objectivo a sua mais completa e absoluta destruição.

"quando a minha vingança tiver terminado, poderei voltar a ser o velho dae-su?", solto ao fim de 15 anos, dae-su quer saber quem, quer saber porquê, quer fazer o responsável pagar, e depois de tudo isso quer a sua vida de volta. numa das muitas imagens memoráveis deste filme pára na ponta de um corredor. atrás de si estão duas dezenas de corpos ensanguentados. na sua mão um martelo. e nessa altura conseguimos vê-lo claramente nos seus olhos. não há nada para onde voltar depois da vingança.

oldboy caminha por lugares escuros e desconfortáveis. não é, de certeza, um filme para toda a gente. mas se tiverem estômago para ele esqueçam qualquer outro filme que vos diga que é "a roaring rampage of revenge". a vingança afinal é melhor servida a quente. com um martelo de orelhas.

(9/10)
jorge
(estreia em fevereiro de 2005)

publicado por jorge às 10:36
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Segunda-feira, 21 de Junho de 2004

storytelling

"of this much I'm certain: if you write a good script with a great premise, you'll have a big hit. if you write a bad script with a great premise you'll still make money. but if you write a great script with a bad premise, success is not likely."
jeffrey katzenberg



"those avatars of high culture hold it almost as an article of religious faith that plot and story must be subordinated to style, whereas my deeply-held conviction is that story must be paramount, because it defines the entire work of fiction. all other considerations are secondary—theme, mood, even characterization and language."
stephen king



storytelling é uma palavra inglesa que não tem tradução directa para português. o mais próximo que se arranja é contar histórias. esta lacuna no vocabulário português tem duas causas:

1.em portugal, ninguém sabe contar histórias, portanto, não há necessidade de encher o nosso já extenso vocabulário com um termo que não vamos utilizar;

2.nos países onde esta palavra existe - ou onde reconhecem o seu significado - é uma arte. em portugal a arte está no subtexto das histórias que contamos mal.

em portugal, o subtexto é a génese da criação cinematográfica. em portugal, um filme, antes de ser um filme é sempre um manifesto. há muitos subtextos, alguns avulso, outros agrupados em categorias, sendo que as principais três são a política, a económica e a social. avulso ou integrado numa categoria, ao subtexto é depois sobreposto um texto - ou perderíamos a razão de ser do prefixo sub, o manifesto passaria para primeiro plano e tornar-se-ia óbvio. coisa que em portugal não queremos porque os artistas não podem ser óbvios.

chegamos assim à conclusão que nesta terra um argumento é composto de dois textos: o subtexto e o sobretexto. o equivalente, nos países onde existe o termo storytelling, ao nosso sobretexto é a história. não se pense, no entanto, que são exactamente a mesma coisa. o sobretexto não tem, necessariamente, de ter uma estrutura, um princípio, um meio e um fim, porque serve um só propósito: encher chouriços durante duas horas até que o subtexto seja assimilado pelo espectador - coisa acontece no primeiro quarto de hora, mas deixem lá isso... o importante é reter que em portugal o subtexto tem primazia sobre o sobretexto.

depois vem o enquadramento espacial e temporal desta sobreposição de textos: a guerra colonial. dê por onde der, a obra - o termo filme poderá ferir susceptibilidades - tem de enquadrar a vida dos combatentes ou dos ex-combatentes. às vezes, os fantasmas da guerra colonial também aparecem; talvez seja por isso que tantas vezes ouvimos dizer à saída da sala que "isto é um autêntico terror". ou então não, porque em portugal os fantasmas não são seres sobrenaturais - o que seria interessante! não, em portugal os fantasmas são seres psicológicos. é por isso que nunca os vemos no écran; os seres sobrenaturais não têm lugar no nosso cinema e os seres psicológicos estão escondidos no subtexto.

discutir sobre o que faz o cinema português ser o que é - chamar-lhe um terror é uma falta de respeito para com um género cinematográfico cuja tradição nasceu muito antes de se começar a filmar em portugal - é o mesmo que ir ver um filme português: fala-se, fala-se, fala-se, mas o pouco que se diz é sempre o mesmo e, claro, não se vai a lado nenhum. em portugal há argumentistas e realizadores, mas não há storytellers. se houvesse, filmes como pieces of april, de peter hedges, tesis ou abre los ojos, de alejandro amenábar, estariam a ser feitos em portugal. os valores de produção destas obras - ou de um rol sem fim de exemplos óbvios - são a maior parte das vezes inferiores aos valores de produção aqui praticados.

uma boa história é meio caminho para um bom filme. uma boa história, assim como uma boa canção, é aquela que sobrevive mesmo quando despojada dos artifícios que a adornam. este conceito é, na realidade, mais que um conceito. é um método experimental que visa testar a resistência de uma história e chama-se método da árvore de natal (porque quando passa a quadra natalícia e se arrumam as bolas, as fitas, os anjos, e o resto dessa quinquilharia toda, ou se fica com um belo pinheiro, ou com uma bela merda de plástico).

se a história é boa - e bem contada -, não interessa se é filmada em digital ou em película, se é a cores ou a preto-e-branco, se é mudo ou sonoro... não interessa se os actores saíram todos do actors studio ou do teatro quase amador da bobadela... não interessa - e esta vai ser uma questão polémica! - se os efeitos especiais são da industrial light & magic ou do gajo da comissão de festas da póvoa de lanhoso responsável pelo fogo-de-artifício.

marco

publicado por jorge às 01:21
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Sábado, 19 de Junho de 2004

tarantino 101: vol.1

bill 2.jpg

tarantino 101. como nos cursos básicos. introdução à neurologia. aprenda a cortar o seu próprio cabelo em apenas 10 passos. querem ser o quentin tarantino? estão no sitio certo. ou se calhar não estão, que se soubesse o segredo não estava aqui sentado sozinho a escrever isto. estava a repor a verdade dos factos com um filme em que o gordon liu arrumava a uma thurman com um braço atrás das costas. ou com os dois.

a obsessão de tarantino com o cinema está vastamente documentada. se me perguntarem talvez até demais. depois de kill bill as listas de influências e referências choveram. só o site tarantino.info lista para aí umas 80. e aposto que não repararam pelo menos numa dúzia. tarantino é um film geek, e depois? já ouviram bem o scorsese a falar dos filmes que o influenciaram a ele? a razão do fascínio à volta das influências do realizador reside, parece-me, na obscuridade dos títulos referidos nas infindáveis sessões de name dropping em que transforma as entrevistas. não ouvimos sturges, ou hawks ou ford. não ouvimos buñuel ou de sica. ouvimos five venoms, lucio fulci, jack hill e sonny chiba. é a vingança dos nerds. e depois há outra coisa. realizadores cinéfilos não faltam, mas quantos construíram um filme inteiro só de homenagens? e o transformaram num sucesso de bilheteira capaz de envergonhar a soma dos homenageados?

claro que há um lado negativo em tudo isto. kill bill vol.1 pode ser um dos filmes mais cool de que há memória em tempos recentes. mas é todo estilo e nenhuma substância. e o facto de constantemente referenciar trabalhos que lhe são superiores também não lhe faz grandes favores. mas a verdade é que a maior parte das pessoas que foram ver o filme não estavam, como eu, a jogar ao "onde é que está o wally" cinematográfico. para a maior parte deles o material é tão fresco como se tivesse saído integralmente da cabeça de tarantino. e até podem ouvi-lo a falar daqueles filmes esquisitos todos nas entrevistas, mas não vão mexer o rabo para os procurar. além disso, quem é que quer ver um filme de artes marciais que não seja falado em inglês? melhor, quem quer um filme seja lá de que género for que não seja falado em inglês?

no entanto kill bill, veja-se com que olhos se vir, é muito mais do que um mero exercício de deejaying cinematográfico. nem seria preciso o volume 2, que trouxe a substância ausente do primeiro e aquilo a que alguns chamaram o toque pessoal (para alguém que respira estes filmes como tarantino o faz, acredito que o vol.1 seja intensamente pessoal). é, de qualquer maneira, mais do que copy/paste, mais do que "olhem como sou cool", uma declaração sincera de amor pelo cinema. por todo o cinema. do mais xunga ao, bem, ao mais xunga. e aqui xunga é apenas uma designação cómoda, não um adjectivo. a qualidade na arte é sempre um conceito discutível. pessoalmente a escolha entre uma produção merchant/ivory e o lo lieh a partir a boca a alguém não me coloca qualquer dúvida. não é que tenha alguma coisa contra o anthony hopkins ou a emma thompson, mas temos de encarar os factos: não duravam 30 segundos contra o lo lieh.

desculpem se me entusiasmei. isto era suposto ser uma introdução de um parágrafo à lista que se segue. o seu propósito ultrapassa-me. começou por ser uma piada numa mailing list e entretanto vieram-ma cobrar. existem dezenas de listas mais exaustivas na net. não tenho os conhecimentos, nem o tempo, e, de qualquer maneira, não era esse o meu objectivo aqui. escolhi quinze filmes que me parecem reflectir uma possível génese do universo de tarantino, limitando-me aos que vi e aos de que mais gosto. vejam-nos religiosamente, e tudo o que encontrarem à volta, e pode ser que também consigam ser o quentin tarantino. se isso não acontecer sairão da experiência enriquecidos pelo visionamento de alguns excelentes filmes. e da próxima vez que virem o kill bill ou reservoir dogs vão talvez vê-los com outros olhos. divirtam-se e não se esqueçam de agradecer ao zombie quando estiverem a receber o óscar por "godzilla e os ninjas enfrentam os mortos-vivos de shaolin na prisão das mulheres canibais".

city on fire, de ringo lam (1987)
tem o chow yun-fat no seu periodo mais carismático em rota de colisão com a namorada por causa do trabalho, e dividido entra a amizade e o dever de policia infiltrado num bando de assaltantes. um clássico menor do cinema de hong kong e o terceiro acto é o reservoir dogs.

battles without honor and humanity, de kinji fukasaku (1973)
talvez o meu preferido entre os filmes que vi sobre a yakuza. épico passado em hiroshima que desmistifica o código moral do crime organizado japonês, que pelos vistos também não sobreviveu à bomba. traições, braços decepados, nenhuma honra, nenhuma humanidade.

dressed to kill, de brian depalma (1980)
o meu candidato para único giallo genuíno feito em território americano. depalma no zénite da sua fase hitchcock rouba liberalmente ao mestre mas com estilo. além disso o michael caine e o dennis franz no mesmo filme é bom demais para passar ao lado.

foxy brown, de jack hill (1974)
foxy brown é sexy, esperta, tem contas para ajustar e, pelos vistos, é cinturão negro em bancos de bar. parece que nos anos 70 dava para esconder uma arma no afro. e vocês nunca viram uma mulher até verem a pam grier neste filme.

paura nella città dei morti viventi, de lucio fulci (1980)
os mortos-vivos, pelo menos os italianos, saem directamente das portas do inferno. e as meninas que não tiverem treinado com o pai mei e forem enterradas vivas são bem capazes de ficar com uma picareta cravada na cara. fulci quando era mau era muito mau, mas poucos chegam aos calcanhares de quando era bom.

os restantes dez títulos serão publicados no vol.2 daqui por um ano. ou se calhar no final da próxima semana.

jorge

publicado por jorge às 03:41
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Quinta-feira, 17 de Junho de 2004

o zombie já viu: pieces of april

...

um filme de peter hedges
com katie holmes, derek luke, patricia clarkson e oliver platt
estados unidos, 2003 imdb

muito antes de ver o filme, muito antes de saber que pieces of april é uma pequena maravilha, já tinha uma razão que justificava, fosse ele bom ou mau, a sua simples existência: a pequena compilação de canções que compõem a banda sonora. com vinte e poucos minutos de duração, a compilação reúne dez magníficas canções — cinco delas inéditas — desse pequeno génio que dá pelo nome de stephin merritt, quer a solo, quer por dois dos seus projectos paralelos: os magnetic fields e os the 6ths.

pieces of april é todo ele filmado em suporte digital e isso é coisa que ainda me atrofia o paladar. entrei na sala com o pé direito a todo o gás, empolgado pela banda sonora, e o esquerdo a arrastar-se, relutante por não sentir o cheiro a celulóide... tipo zombie, estão a ver? quando saí da sala, os dois pés vinham com o passo equilibrado — algo aconteceu... huuumm... okay, concordo com os meus pés. pieces of april é um encanto de filme e constará nas listas dos mais belos deste ano.

então e essa coisa das câmaras digitais? já passou? não, não passou, mas já não dói muito. no entanto, há um reparo que tenho de fazer: meus amigos... há à venda — porque há muito que já os inventaram — tripés também para as câmaras digitais. até aqui estamos de acordo, certo? eu sei que a língua é uma entidade mutável, mas que eu saiba, até ao momento, "digital" ainda não é sinónimo de "tremeliques". portanto... já se acabava com essa merda, não?

expostas as minhas reticências nesse campo, onde é que pieces of april marca a diferença? no mais importante de tudo: esta pequena pérola relembra-nos que a história tem primazia sobre qualquer outro aspecto de um filme, do estilo à narrativa, passando até pela composição das personagens — o que é que adianta ter um marlon brando/don corleone se não houver uma história onde possa habitar? (este parágrafo é o pretexto para um texto que será aqui publicado na próxima semana).

peter hedges, que recentemente escreveu o argumento de about a boy, adaptado do romance de nick hornby, tem aqui a sua estreia na realização, a partir de um argumento seu. hedges revela, em qualquer um destes campos, um certo talento para captar a condição humana no seio da confusão social que rodeia as suas personagens. os actores de pieces of april facilitam-lhe o trabalho e oferecem-lhe um punhado de interpretações consistentes; algumas delas podiam ter muito mais dimensão e profundidade, mas aí a culpa recai mais sobre o argumento de hedges, que por vezes se apoia em clichés para enfeitar a história.

tudo acontece num espaço de horas, durante o dia de acção de graças. april burns é o patinho feio de uma família que não a respeita; a irmã é ciumenta, o irmão é indiferente, a mãe sofre de cancro e já perdeu a esperança na filha, e o pai é o único que ainda lhe devota alguma confiança. ainda assim, april anseia pela reconciliação e convida a família — que é do mais disfuncional que há — para jantar em sua casa nesse dia especial. o problema é que a miúda não sabe cozinhar e, para complicar, o forno deu o berro. como não se pode assar um peru ao sol, ela tem de descobrir no prédio um vizinho que lhe disponibilize o forno. claro que isto não é uma linha recta e os obstáculos acumulam-se.

o filme segue esta história central, mas acompanha ainda duas histórias de suporte: primeiro, as peripécias da viagem de carro da família de april até nova iorque, e, segundo, a história de bobby, o namorado negro, que acaba por ser o calcanhar de aquiles do filme. hedges joga aqui com os estereótipos deste tipo de personagem e lança-o numa missão - ambígua para espectador — cujo único propósito é criar suspense e alarme sobre a natureza de bobby.

de uma forma geral, o drama não é forçado e o humor brota naturalmente das situações. pieces of april segue calmamente o seu caminho e os tropeções não lhe abalam o equilíbrio. as suas falhas — e a sua sinceridade para com essas falhas - acabam, isso sim, por torná-lo mais humano, que é exactamente o que april e a sua família são: humanos.

(6/10)
marco
(estreia a 24 de junho)

publicado por jorge às 15:50
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críticas de bolso: dirigible e nabonga

dirigible

dirigible (1931)
de frank capra, com jack holt, ralph graves e fay wray

aventura saída das mãos de um rapaz de 34 anos chamado frank capra, a capitalizar a parceria de sucesso de holt e graves, e que tem um dirigível e dois pilotos a competir pelas atenções da menina fay wray. deve ter sido para variar de submarine, também realizado por capra dois anos antes, também com holt e graves, e que tem um submarino e dois marinheiros a competir pelas atenções da menina dorothy revier. ou de flight, do ano anterior, que tem aviões e dois pilotos competir pelas atenções da menina lila lee... neste caso temos uma tentativa de expedição aérea ao pólo sul mal sucedida, e uma missão de salvamento no veículo titular do filme. as cenas aéreas estão muito bem esgalhadas, principalmente se tivermos em conta as limitações da época em termos de efeitos, e são fascinantes. a acção é envolvente e o ritmo é excelente mas o triângulo amoroso é insípido e banal, apesar da presença de miss wray, que como toda a gente sabe era capaz de fazer perder a cabeça até a gorilas gigantes. (5/10)

nabonga

nabonga (1944)
de sam newfield, com buster crabbe e julie london

por falar em gorilas. nabonga tem buster crabbe, o flash gordon em pessoa, numa aventura africana, a tentar investigar o desaparecimento de um homem de negócios cujas fraudes levaram ao suicídio do seu pai. pelos vistos o tipo não sobreviveu à selva mas a filha anda por lá, acompanhada por um gorila, ou, mais especificamente, de um tipo num fato manhoso de gorila, que se tornou no seu protector. há ainda um casal de vilões que anda atrás do dinheiro com que o homem tinha fugido, uma espécie de triângulo amoroso envolvendo o símio do título, imagens de arquivo com fartura, combates com crocodilos de borracha e uma representação dos nativos que faz os filmes do tarzan parecer politicamente correctos. típica produção da prc, feita com o dinheiro que produtor levava no bolso para lanchar. dentro do fato de gorila está o mítico duplo ray "crash" corrigan, dono de uma carreira rica e variada onde interpretou, entre outros, naba o gorila, bonga o gorila, nbongo o gorila e zamba o gorila. como aventura é miserável mas melhora consideravelmente se visto como uma comédia. e acompanhado por quantidades substanciais de álcool. (2/10)

jorge

publicado por jorge às 03:51
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Terça-feira, 15 de Junho de 2004

o zombie tem uma coisa para vocês

xmaszombie(174 x 225).jpg
ok, o zombie está-se a sentir particularmente mãos largas esta semana, e propõe-vos um desafio: vamos oferecer um dvd a quem identificar correctamente todos os elementos presentes na montagem que dá o título a este blog.
o que têm de fazer é enviar um mail para zombie@sapo.pt com a vossa resposta. não respondam nos comentários porque só iam estar a ajudar os outros. têm até à próxima segunda-feira para enviar os mails. e em caso de haver mais do que uma entrada com as respostas todas certas ganha a mais completa, ou seja a que identificar além do actor, o filme, o nome do personagem e por aí adiante. no caso de ninguém acertar em todos os nomes vencerá que se aproximar mais.
"mas e que dvd é que tens como prémio ó zombie?" perguntarão vocês... é pá, é de borla. vão o quê, armar-se em esquisitos agora?



já sabem: têm até segunda-feira dia 21 à meia-noite. terça publicamos os resultados e as respostas certas.

publicado por jorge às 16:49
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