Sexta-feira, 2 de Julho de 2004

marlon brando 1924-2004



"there's a line in the picture where he snarls, 'nobody tells me what to do.' that's exactly how I've felt all my life."
marlon brando sobre the wild one

publicado por jorge às 22:33
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Quinta-feira, 1 de Julho de 2004

sessão dupla: cabin fever e dog soldiers

cabin fever decalca uma cena fulcral de night of the living dead e uma das personagens de dog soldiers chama-se bruce campbell, o mítico actor de evil dead. são duas entre muitas referências, mas são também, e apenas, curiosidades, private jokes em tom de agradecimento pela inspiração que, décadas depois, ainda mantém o filão vivo.

falo de inspiração, mas também falo de paixão, dedicação e talento. não esqueçamos que em questão estão filmes que feitos com meia dúzia de tostões são obras-primas - ou andam lá perto -, deixando bem claro que as características mencionadas dão sempre melhores resultados que muitos milhões de dólares.

basta meia dúzia de humanos e um local isolado. uma vez criado o microcosmos, é preciso destabilizá-lo. depois de quebrado o equilíbrio, é preciso repôr a ordem natural. esta é a essência de uma fórmula que tem barbas, mas que continua actual e relevante. actual porque representa um processo primário intrínseco ao indivíduo e à sociedade. relevante porque, de tão simples que é, veicula com maior veemência a sua mensagem. não há forma de simplificar a dita fórmula, mas há variadas maneiras de a complicar... no bom e no mau sentido, dependendo se há ou não talento para cobrir a aposta.

pode ser uma cabana isolada na floresta, mas também pode ser um acampamento científico no antártico. pode ser onde se quiser desde que o dinheiro chegue e a povoação mais próxima esteja a milhas de distância, ou seja tão inóspita que é preferível estar entregue aos bichos.

por falar em bichos, vamos lá ver o que é que esta sessão dupla nos reserva. eli roth e neil marshall são dois novatos na realização. terão eles o coração e a cabeça no sítio certo? george a. romero e sam raimi tinham... pois, mas não há muitos como eles!

cabin.jpg
cabin fever (2002)
de eli roth, com rider strong, jordan ladd e joey kern

cabin fever tem a receita escrita no verso da embalagem, mas eli roth, argumentista e realizador, tem mais olhos que barriga e decidiu "elaborar"... acabou com uma mixórdia que sabe a tudo ao mesmo tempo que não sabe a nada. roth deixa-se levar pelo entusiasmo - cabin fever é a sua primeira longa-metragem - e vai experimentado tudo o que lhe ocorre. o filme muda constantemente de tom e intenção: é uma comédia, é um filme de terror, é um tributo, é uma parábola… é tudo, mas aos pedaços. essa heterogeneidade topa-se à distância e o fluir natural das situações perde-se.

o grupo de personagens (a.k.a. carne para canhão) é constituído pelos habituais adolescentes estereotipados e neste cabin fever está condenado a morrer, isolado numa cabana nas montanhas, às mãos de um qualquer vírus devorador de carne. esta premissa serve de pretexto para a mão cheia de cenas gore que são o melhor que o filme tem para promover.

a certa altura apercebemo-nos que a cabana não é assim tão isolada e até há bastante gente por aqueles lados. roth vai introduzindo personagens, na sua maioria elementos cómicos, que são faltas que quebram o ritmo do jogo. ainda assim, uma das faltas mais graves é a forma amadora como roth entrega de bandeja a resolução da sua história no decorrer do segundo acto. se se tivesse concentrado mais na sua premissa e na sua fórmula, talvez não tivesse deixado a descoberto a regra mais básica e delicada de todas. cabin fever é um filme desorganizado, uma amálgama de ideias que num argumento coerente e menos armado em espertalhão teria dado uma boa primeira obra.

fala-se de um tal the box (com data de estreia anunciada para 2005) adaptado por richard kelly a partir de uma história de richard matheson e realizado por eli roth. kelly escreveu e realizou o fabuloso donnie darko e matheson é um conceituado escritor e argumentista com um currículo invejável. pode ser que kelly traga o argumento sólido que faltou a cabin fever e liberte roth para jogar a sério na realização em vez de andar a dar toques.

(4/10)

dog.jpg
dog soldiers (2002)
de neil marshall, com sean pertwee, kevin mckidd e emma cleasby

um esquadrão de soldados britânicos é aerotransportado para as terras altas escosesas numa missão de treino. perderem o jogo de futebol mais importante da década graças a este exercício é o pior que lhes vai acontecer... pensam eles. pouco tempo depois do desembarque tropeçam no capitão richard ryan, líder de uma unidade das operações especiais que ali se encontra - aliás, encontrava - numa missão secreta. ryan está gravemente ferido e é o único sobrevivente da dita unidade. ryan não se descose quanto ao porquê da sua presença no local, mas é bem possível que tenha alguma coisa a ver com os lobisomens que lhes caiem em cima.

ajudados por uma rapariga local, os soldados refugiam-se numa cabana e barricam-se no interior. os lobisomens não cessam as hostilidades; as baixas vão aumentando, as munições vão diminuindo e a situação torna-se crítica. dog soldiers é a primeira longa-metragem de neil marshall e é escrita e realizada por ele. marshall faz tudo como mandam as regras e concentra-se nos seus objectivos. nota-se desde cedo que o realizador está mais inclinado para a acção do que para o terror. os lobisomens passam a ser a variável; substituam-nos por zombies, índios, bandidos, extraterrestres, o que quer que vos ocorra, e o filme continua a ser o que é.

a acção é o mais importante, mas não é gratuita. dog soldiers começa por consolidar as suas personagens dando-lhes dimensão e envolvência. o grupo apresenta a habitual formação eclética, mas apresenta também uma invulgar coesão. o seu desmembramento - e isto pode ser interpretado literalmente! - é tão difícl de aceitar pelas personagens como é pelo espectador. marshall também dedica atenção aos seus lobisomens e dá-lhes um novo visual, mais animal, mais feroz e mais ágil. quando surgem em cgi deixam algo a desejar, mas quando toca a caracterização física, são aterrorizadores.

dog soldiers é entretenimento despretensioso de bom nível. há uma infindável lista de primeiras obras mais prometedoras e mais corajosas. marshall jogou pelo seguro. não há nenhum mal nisso, mas o resultado conseguido com este filme inspira confiança e coragem para voos mais arrojados da próxima vez.

(6/10)
marco

publicado por jorge às 23:41
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