Terça-feira, 23 de Novembro de 2004

uma noite com ilsa

ilsa

nestas noites frias de novembro o zombie sente a falta de uma companhia que lhe aqueça o coração e a cama. alguém que dê sentido à sua solitária existência de morto-vivo. com quem apeteça ficar em casa, debaixo dos cobertores, a ouvir a chuva lá fora, partilhar um chocolate quente e ver a versão sem cortes do cannibal ferox.

e será possível imaginar melhor companhia para estas longas noites invernais do que uma dominatrix quarentona, de peito abundante e farda das ss?

ok, não respondam a essa pergunta.

proveniente da abençoada década de 70, em que não parecia haver limites ao que se podia mostrar no grande écran, a série ilsa tem lugar cativo na lista dos mais infames produtos da sétima arte. com algo capaz de ofender toda a gente, e alegremente alheia às regras ditadas pelo politicamente correcto e pelo bom gosto, a sua mistura choque de sexo softcore e violência hardcore garantiu que estes filmes transcendessem o seu estatuto de simples exploitation e se transformassem em genuínos objectos de culto para cinéfilos em todo o mundo. cinéfilos que provavelmente têm problemas.

só porque gosta de vocês™ o zombie passa mais de seis horas a olhar para as mamas da dyanne thorne e partilha as suas conclusões.



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ilsa, she wolf of the ss (1974)
de don edmonds, com dyanne thorne e gregory knoph

she wolf começa com um aviso do produtor que fala sobre as atrocidades do terceiro reich. o que se segue, porém, não é propriamente o shoah. ilsa é a comandante de um campo de experiências médicas nazi. decidida a provar a sua teoria de que as mulheres são capazes de suportar maiores quantidades de dor do que os homens, passa os dias a torturar alegremente as suas prisioneiras e a noite, porque a vida não pode ser só torturar, a obrigar os prisioneiros a satisfazê-la sexualmente, castrando-os de seguida. wolfe, um prisioneiro recém-chegado ao campo, é poupado a esta sorte por causa da sua extraordinária capacidade de "aguentar toda a noite". como bónus a comandante até o deixa dar uma voltinha nas suas duas capangas lésbicas arianas. porque é que depois disto wolfe continua a insistir em conspirar contra ela é algo que me ultrapassa.

em traços largos, para aqueles que fazem questão de saber "sobre o que é" um filme, é isto. claro que a história é um elemento secundário aqui, tendo por único objectivo sequenciar os abusos, humilhação, tortura e desmembramento a que ilsa submete os prisioneiros, e exibir quantidades industriais de nudez frontal. estavam à espera do quê? acham que alguém vê estas coisas por causa do argumento?

filmado em nove dias nos cenários da série televisiva hogan's heroes, she wolf tem um aspecto bem mais profissional e polido do que o seu baixo orçamento faria adivinhar. o que torna a galeria de atrocidades exibida numa experiência potencialmente muito incómoda para os que tenham um estômago mais fraco. os efeitos gore de joe blasco (que de seguida trabalharia com cronenberg) são bastante bons para a época e o realizador don edmonds mantém as coisas a andar a bom ritmo. o verdadeiro golpe de mestre foi no entanto o casting de dyanne thorne para protagonista. apesar de já ter passado dos quarenta à época das filmagens, a ex-showgirl de las vegas transformar-se-ia num ícone sexual capaz de atravessar gerações à conta deste papel. mesmo com uma capacidade dramática limitada, a sua presença no écran é magnifica, capaz de despertar ao mesmo tempo terror e desejo. e, claro, o facto de ter sido abençoada pela natureza com aquele peito imponente também não lhe é prejudicial.

um dos raros produtos exploitation que quase trinta anos depois ainda está à altura da sua reputação, ilsa, she wolf of the ss não perdeu a sua capacidade para chocar ou ofender e continua a garantir divertimento para toda a família. principalmente se fizerem parte da família manson. se não, o melhor é irem alugar o schindler's list ou qualquer coisa do género. (6/10)

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ilsa, harem keeper of the oil sheiks (1976)
de don edmonds, com dyanne thorne e max thayer

pelos vistos não será um pormenor insignificante como a morte que vai impedir ilsa de continuar a semear o seu reino de terror à volta do mundo. de volta ao activo em pleno médio oriente, a amazona germânica é agora capataz do harém do xeque el sharif (não me perguntem pelos outros oil sheiks, só vi um). o seu trabalho? torturar, mutilar, matar, enfim... uma rapariga tem de fazer o que uma rapariga tem de fazer. para a ajudar tem um novo par de capangas lésbicas, desta vez em versão blaxploitation, mas de resto está na mesma. fresca como se nunca tivesse morrido 30 anos antes.

infelizmente parece que o xeque tem estado a acumular grandes quantidades de petróleo o que significa, como já se sabe nestas coisas, que é só uma questão de tempo até chegarem os americanos. e quando o agente secreto adam chega ao palácio as coisas só podem correr mal. até porque parece que o coração gelado da nossa cabra sado-maso favorita está prestes a descongelar.

harem keeper tem quase tudo a seu favor. o afastamento do universo nazi diminui de forma significativa a sua carga ofensiva (por falar nisso, se quiserem ver um filme verdadeiramente ofensivo sobre o holocausto experimentem o la vita è bella), mas há gore e nudez gratuita em quantidades suficientes para não deixar ficar mal os fãs. aliás, desenganem-se os que estiverem a pensar que os níveis de depravação e crueldade presentes, se bem que inferiores aos de she wolf, são mais toleráveis para quem não tenha um estômago forte. tenho duas palavras para vocês: diafragma explosivo. no entanto a adição da trama de espionagem e o facto de a série ter, por esta altura, desenvolvido um sentido de humor tornam o carrossel de atrocidades bastante mais fácil de suportar.

thorne está em grande forma e, apesar de passar mais tempo vestida do que seria recomendável, continua a ser uma presença fascinante. thayer é um cepo mas o resto do elenco não vai mal, com destaque para o misterioso victor alexander que no papel do xeque rouba todas as cenas em que participa e para a presença de algumas das vedetas mamárias preferidas de russ meyer: uschi digard (que já tinha feito uma perninha no anterior), haji e sharon kelly (a actriz porno colleen brennan). o realizador don edmonds, de novo aos comandos, volta a fazer brilhar o seu parco orçamento e o filme tem quase aspecto de ter sido produzido por um estúdio a sério, facto a que não terá sido alheia a presença do director de fotografia dean cundey (a caminho de trabalhar com spielberg, zemeckis e carpenter).

se a expressão "divertido" pudesse ser aplicada a algum filme da série, acho que este seria o escolhido. claro que a perspectiva de uma ilsa apaixonada, a suspirar como uma colegial, é um bocadinho desconcertante. nesse aspecto harem keeper mancha-lhe a reputação e retira-lhe pontos junto àqueles de nós que preferem a versão de coração negro e seco. mas suponho que até as cabras malvadas podem conhecer o amor. e o filme tem lutadoras lésbicas de artes marciais afro em topless. não me parece possível ultrapassar isso. (6/10)

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ilsa, the wicked warden (1977)
de jesus franco, com dyanne thorne e lina romay
título original greta, haus ohne männer
aka greta the mad butcher, wanda the wicked warden

o terceiro capítulo das aventuras de ilsa, se nos quisermos armar em esquisitos, pode ser considerado ilegítimo. parece que o lendário produtor erwin c. dietrich, responsável pela distribuição europeia dos filmes anteriores, resolveu apanhar uma boleia do sucesso da série e subsidiar a sua própria imitação. felizmente para nós conseguiu assegurar o(s) talento(s) de dyanne thorne e do mestre espanhol do cinema sádico/perverso/esquisito (e favorito do zombie) jesus "jess" franco.

assim nasceu greta (ou wanda, estas coisas têm tantas versões que é difícil ter a certeza), uma ilsa de permanente ruiva à qual reposições e edições vídeo posteriores devolveriam o verdadeiro nome. desta vez a nossa menina está ao comando de um hospital para mulheres com problemas psiquiátricos, num qualquer país da américa latina. e, fiel aos seus velhos hábitos, não olha a meios para limpar as pacientes das suas perturbações (apresentadas como "ninfomania, lesbianismo e prostituição"). na verdade o hospital é uma fachada; o local é uma prisão utilizada pelo regime fascista para torturar e eliminar presos políticos. é isto que vai descobrir a jovem abby (tania busselier) quando ali se infiltra para tentar saber o que aconteceu à irmã desaparecida.

o realizador faz jus à sua reputação, apresentando um catálogo de atrocidades capaz de fazer os primeiros dois filmes parecerem episódios de uma casa na pradaria. definitivamente o homem não pode ser normal. entre outras coisas há tortura genital com ácido, choques eléctricos, alfinetes no peito e uma sequência intragável em que a futura sra. franco, lina romay, demonstra um método alternativo de higiene pessoal. e se acharam que o destino reservado para ilsa em harem keeper era grotesco esperem só até ver o que lhe acontece aqui. o elenco competente ajuda à credibilidade da coisa, incluindo thorne, que também, nesta altura do campeonato, já devia conseguir fazer o papel a dormir.

franco contra-balança as sequências mais extremas com filmagens langorosas das detidas nuas no duche ou dos longos banhos de espuma da directora, e evita, na sua maior parte, o recurso às suas mais estranhas "estilizações" visuais. mas é abaixo da superfície que a sua presença consegue transformar wicked warden em algo que transcende o seu mero objectivo comercial. e não estou a falar da mensagem política anti-fascista, que é óbvia ao ponto de o realizador em pessoa interpretar o opositor do regime dr. arcos. é que ilsa e os seus capangas filmam a tortura e morte das prisioneiras e distribuem as gravações no mercado negro. para vender a sacanas perturbados que acham divertido ver filmes sobre mulheres a serem torturadas e mortas. (7/10)

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ilsa, the tigress of siberia (1977)
de jean lafleur, com dyanne thorne e jean-guy latour
aka tigress

se quisermos traçar uma cronologia da série, suponho que a nossa comandante pneumática terá ido tomar conta de um gulag para a rússia estalinista pouco depois dos eventos retratados em she wolf. mas porque raio é que estou a falar de cronologias? ilsa morre no final de todos os três filmes anteriores. essa é a cronologia.

de qualquer maneira, a abertura do derradeiro capítulo da saga encontra a directora de prisão sádica favorita de todos nós de novo a fazer das suas, desta vez num campo de prisioneiros soviético. e, pelos vistos, é business as usual já que os seus métodos de "reeducação" para dissidentes políticos envolvem afogamento em água gelada, concursos de braço de ferro sobre moto-serras ligadas, ou, simplesmente, servi-los como jantar ao seu tigre de estimação. os seus apetites sexuais também parecem estar em forma, com os momentos de lazer ocupados a rolar no feno com latagões do exército russo, aos dois de cada vez. mas todas as coisas boas têm um fim e a queda do regime estalinista obriga-a a uma retirada estratégica.

vinte e cinco anos depois ilsa estabeleceu-se no canadá (no canadá?) onde é uma empresária em ascensão na indústria dos bordéis. o passar dos anos deve ter amolecido a nossa heroína (que continua exactamente com o mesmo aspecto que tinha nas sequências iniciais), visto que agora parece mais interessada em utilizar equipamentos sofisticados de controlo mental do que na boa velha tortura física. e quando um dos seus prisioneiros sobreviventes do gulag chega à cidade a acompanhar uma equipa de hóquei ilsa decide terminar o trabalho que iniciara tantos anos antes.

não sei bem o que aconteceu aqui mas, o que quer que fosse, não foi bom. o primeiro terço do filme passa-se no território habitual da série e, apesar da violência e fetichismo parecerem um pouco em piloto automático, as coisas até parecem bem encaminhadas até à súbita transferência da acção para o canadá. aí, sem razão aparente, a amazona teutónica transforma-se de repente num vilão sub-bondiano, uma espécie de fu manchu com mamas, e o filme numa aventura de espionagem série b que não tem nada a ver com nada. pode até ser divertido nesta perspectiva (certamente é o mais alucinado dos quatro), e recomendável como introdução aos que não tenham estômago para os outros, já que a violência e perversidade tradicionais da série estão, em grande parte, ausentes. mas ilsa? não me parece. aliás, o nome nunca é mencionado durante o filme o que, aliado ao facto de se tratar de uma produção canadiana, levanta algumas suspeitas em relação à sua legitimidade. além disso a mudança de foco para vítimas masculinas e o aparente desinteresse da nossa heroína pelos prazeres sáficos são, a meu ver, falhas imperdoáveis. morna e pouco interessante a ilsa canadiana não está simplesmente à altura da sua reputação. e não é como se o canadá não conseguisse produzir entretenimento com base em atrocidades. vejam a celine dion. (4/10)

é uma das minhas grandes tristezas que o planeado quinto filme de ilsa nunca tenha passado da fase de desenvolvimento. tristeza provocada não só pelo carinho que sinto pela série, mas porque tenho a certeza que este teria sido sem qualquer dúvida o melhor filme alguma vez feito. mesmo.

jorge

publicado por jorge às 11:55
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Segunda-feira, 15 de Novembro de 2004

críticas de bolso: night of the blood beast e the bride and the beast

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night of the blood beast (1958)
de bernard l. kowalski, com michael emmet e angela greene

produção z dos irmãos corman com muito pouco que a recomende. o major corcoran, pioneiro do projecto espacial norte-americano, despenha-se em circunstâncias misteriosas durante seu voo inaugural. a equipa de socorro encontra-o morto e com uma estranha ferida no braço. no entanto, apesar de não ter pulso nem respirar, o seu corpo não parece apresentar o comportamento de um cadáver normal. entretanto uma estranha criatura começa a fazer estragos na área. depois o major regressa dos mortos e começa a fazer grandes discursos em que toma o partido partido da criatura e apela à paz e harmonia entre espécies, apesar da espécie em causa ter acabado de arrancar o cérebro a um dos seus colegas. é melhor não lhe prestar muita atenção. só deve estar a falar assim porque a criatura é o pai dos embriões alienígenas que estão a incubar dentro do seu peito. tirando esta última ideia, que antecipa em vinte anos o ciclo reprodutivo do alien, não há grande prazer a retirar daqui. ausentes estão a imaginação e o sentido de humor característicos do cinema de roger corman. o guião limita-se, na sua maior parte, a reciclar material de filmes bem melhores, com o the thing original a ser o principal alvo de pilhagem, por entre diálogo atroz e efeitos risíveis mesmo para a época. a criatura, apesar de pouco memorável, ainda consegue ter algum daquele encanto de monstro b dos anos 50 mas, para blood beast, não é particularmente bestial nem sanguinolenta. o realizador e uma boa parte da equipa veriam dias mais inspirados em attack of the giant leeches. (2/10)

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the bride and the beast (1958)
de adrian weiss, com charlotte austin e lance fuller

já não se fazem filmes sobre mulheres com desejos sexuais por macacos como antigamente. saído da pena do mítico edward d. wood jr., este tem perversão, imagens de arquivo, homens em fatos de gorila maus e camisolas de angora em quantidade suficiente para satisfazer até o mais exigente dos cinéfilos. ou se calhar é só a mim que estas coisas enchem de uma inexplicável alegria. a noite de núpcias de laura e dan é interrompida quando o gorila spanky, com quem laura tinha trocado olhares libidinosos momentos antes, foge da sua jaula e tenta fazer coisas marotas à menina (e por coisas marotas quero dizer exactamente isso que estão a pensar). dan mata o gorila e pouco depois, através do hipnotista mais rápido da história, descobrimos que laura foi rainha dos gorilas numa encarnação anterior, e que é por isso que gosta tanto de camisolas de angora. juro que não estou a inventar. segue-se um safari a áfrica, em versão imagens de arquivo, uma história qualquer sobre uns tigres (também de arquivo) fugidos, e um reencontro de laura com os membros da sua anterior espécie cheio de tensão sexual. se isto não vos convenceu que estão perante uma obra maior da sétima arte então não posso fazer nada por vocês. dos actores pode-se dizer que conseguem manter uma cara séria durante todo o filme, o que só por si é um feito. o facto de o tio ed ter sido apenas responsável pelo argumento significa que, por uma vez, temos direito à sua habitual insanidade com alguém aos comandos que tem pelo menos uma ideia vaga do que está a fazer. podia agora dizer-vos que na sua análise de um casamento disfuncional, cheia de simbolismos freudianos, the bride and the beast é bem capaz de rivalizar com o belle de jour. mas se calhar é melhor não. (5/10)

jorge

publicado por jorge às 03:10
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Domingo, 14 de Novembro de 2004

crítica: sky captain and the world of tomorrow

sky_captain.jpg

um filme de kerry conran
com jude law, gwyneth paltrow, giovanni ribisi e angelina jolie
estados unidos, 2004 imdb

de tempos a tempos lá surge um daqueles filmes da velha escola do "faz de conta", a mesma escola que, dos comics ao cinema, passando pela televisão e pela rádio, deu origem a aventuras inesquecíveis e heróis "bigger than life": flash gordon, dick tracy, luke skywalker, indiana jones... de tempos a tempos, lá conseguimos ir ao cinema e reencontrar o espírito e a inocência de outros tempos; entrar numa sala escura, abandonar qualquer contacto com a realidade e deixar o sonho levar a sua a avante... não é esse o maior fascínio do cinema?

entrar em sky captain and the world of tomorrow é exactamente isso. para nós gajos, é fazer de conta que somos o joe "sky captain" sullivan, justiceiro por conta própria, ás da aviação com direito a esquadrão privado, cujo ego não incha por mais vezes que ouçamos as sirenes de emergência (que significam, claro, que somos o único homem para o trabalho). e depois, é óbvio, apesar do pouco tempo que andar a salvar o mundo nos deixa, arranja-se sempre algum para o romance, sempre elegante - como nos velhos tempos -, agridoce ou picante, dependendo se estamos na companhia da repórter polly perkins ou da capitã franky cook, respectivamente.

para elas, gajas, presumo que a linha de raciocínio seja a mesma, com polly ou franky como ponto de partida, mas não me vou arriscar a especular ou ainda acabamos inundados com comentários jocosos sobre o pouco ou nada que sei sobre mulheres. seja como for, acredito que fazer de conta que se é uma repórter determinada prestes a cobrir a maior história da humanidade e dona do coração do herói dessa história, é uma bela fantasia. já para não falar na pragmática capitã franky cook, uma piloto destemida, muito dona do seu nariz e sem papas na língua… e que apesar da pala no olho, valham-me todos os santos, é a angelina jolie!

percebe-se, portanto, que fantasia é a palavra de ordem. daí que, se a fantasia não é o vosso forte, esqueçam... robots gigantes, estranhas máquinas voadores, armas indescritíveis e cientistas loucos chamados totenkopf, num filme onde a única coisa real são os actores porque tudo o resto é feito em computador... é de torcer o nariz, não é?... vejam a coisa por este prisma: lembram-se do major alvega? sky captain é isso, mas bem feito.

muito há-de ser dito sobre a parte técnica deste filme e ainda bem, porque o mérito é merecido, mas convenhamos que o hábil e inesperado trabalho do novato kerry conran merece também ser reconhecido. longe ainda de nos convencer sobre os seus dotes de realizador, a verdade é que o equilíbrio conseguido na mistura de géneros é fascinante. sky captain começa em tons de film noir, ganha contornos de sci fi, apanha o ritmo das melhores aventuras e, como mandam as regras, humor e romance, ao estilo dos anos 30 e 40, pontilham a narrativa e em glória coroam o último plano do filme.

não há nenhum grande golpe de originalidade em sky captain e é tudo feito by the book, das personagens à estrutura narrativa, mas o à-vontade e óbvio prazer dos actores na encarnação dos bonecos que lhe são atribuídos, bem como a modéstia do argumentista e realizador no decalque das suas influências, ajudam o espectador a deixar a descrença para trás e a tomar o lugar de joe "sky captain" sullivan no cockpit do avião rumo - se fosse eu - à plataforma voadora comandada pela angelina jolie (e o resto do mundo bem podia esperar).

(6/10)
marco

publicado por jorge às 22:22
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Sábado, 13 de Novembro de 2004

o zombie não é surdo

tom_waits.jpg

e estes são os discos que o têm acompanhado nas últimas semanas.

jorge:

tom waits real gone (2004)
ed harcourt strangers (2004)
ray lamontagne trouble (2004)
frank black frank black francis (2004)
afghan whigs gentlemen (1993)

marco:

tom waits real gone (2004)
nick cave and the bad seeds abbatoir blues / the lyre of orpheus (2004)
elysian fields dreams that breathe your name (2004)
elvis costello kojak variety (1995 re:2004)
bang bang machine eternal happiness (1994)

publicado por jorge às 03:53
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Terça-feira, 9 de Novembro de 2004

crítica: the village

village.jpg

um filme de m. night shyamalan
com joaquin phoenix, bryce dallas howard, william hurt e sigourney weaver
estados unidos, 2004 imdb

agora que já lá vai algum tempo, acho que me posso esticar nas palavras que tenho a dizer sobre the village. presumo que quem estava realmente interessado em ver o mais recente trabalho de shyamalan já o fez há muito (claro que há sempre aqueles que pensam que vêem cinema em casa e preferem esperar pela edição em dvd... okay, terei esses em consideração e não revelarei o final, mas aviso desde já que é bem possível que encontrem pistas suficientes para lá chegarem por vocês mesmos. portanto, se não quiserem correr o risco, parem de ler no ponto final que se segue).

vamos lá então: a acção de the village passa-se numa época e local indeterminados. se no que diz respeito à época podemos supôr que rondará a viragem do século xix para o século xx, no que toca ao local, não supomos nada… sabemos apenas que se trata de uma comunidade isolada, de onde nenhum habitante pode sair porque a floresta que a rodeia é habitada por por criaturas sem nome que, segundo consta, não gostam mesmo nada que os humanos saiam da vila e vão meter o bedelho na referida floresta, irritando-se forte e feio quando tal acontece.

com base nisto, shyamalan constrói não só o seu pior filme, como também um dos piores filmes do ano. o que se segue é óbvio. um acidente deixa um habitante às portas da morte e a precisar de um medicamento que só pode ser obtido nas cidades que ficam do outro lado da floresta. alguém vai ter de atravessar a floresta e enfrentar as criaturas que aterrorizam a vila há não sei quanto tempo (criaturas essas que os anciões, em vez de lhes atribuir um nome, designaram, numa tradução directa do inglês, de "aqueles de quem nós não falamos"… o que dá sempre jeito em qualquer língua e não é mesmo nada parvo… ou então é...)

no que toca a parvoíce, the village não se fica por "aqueles de quem nós não falamos", mas em vez de chafurdar na lama durante o resto do texto, mais vale meter logo a cabeça no lodo e dizer que missão de sair da vila, atravessar a floresta, enfrentar "aqueles de quem nós não falamos", alcançar a cidade, arranjar o medicamento, regressar à vila e manter a ordem natural das coisas (pelo meio já aconteceu o tão ansiado twist) cabe… a uma cega!… a uma cega?!… pior que isto só mesmo o velho e caduco truque do "foi tudo um sonho"... na escala de evolução das soluções de argumento, estas duas são do mais primata que há. mesmo assim, muitos são os filmes em que “foi tudo um sonho” e são melhores do que the village!

e porquê?... porque, antes de mais, não se tentam justificar com uma mensagem sobre a vilania da sociedade, que não só é redundante como é também metida sob pressão no argumento para validar a existência da vila. e depois, porque são filmes bem mais coerentes do que as duas horas que shyamalan leva para chegar um twist sem qualquer impacto... ou mesmo que tivesse algum impacto, ao fim de meio filme, já a dormência causada pelo vazio da história e a transparência das personagens impede que se sinta seja o que for.

the sixth sense não é tão bom como o pintaram, mas é muito mais interessante do que the village. ambos são construídos sobre uma premissa simples e linear. a diferença é que no primeiro a atenção do realizador estava bem focada no seu twist e conseguiu com isso criar um competente exercício de suspense; no segundo o realizador só poderia estar a dormir... no primeiro shyamalan não nos dava tempo para pensar racionalmente nas improbabilidades da sua história e a coisa resultava; no segundo, há tempo para pensar em tudo e mais alguma coisa... só o tempo que a cega leva a atravessar a floresta permite trazer à mente, vezes sem conta, a suposição "isto tinha piada se ela chegasse ao outro lado e encontrasse...". e mesmo que depois esqueçam que pensaram isso, quando isso de facto acontece, já se tornou tão ridículo que até mete dó. principalmente com uma cega como desculpa... uma cega!... como é que é possível descer tão baixo?!...

entrei na sala para ver o the village convencido que o melhor twist que shyamalan poderia criar era fazer um filme melhor que o unbreakable. não esperava que tal acontecesse, mas também não esperava o seu pior filme. se m. night shyamalan pensa fazer carreira a fazer truques, devia ir para ilusionista. se a ideia é continuar a fazer filmes, devia alugar o referido unbreakable e relembrar o que é um filme a sério.

(3/10)
marco

publicado por jorge às 01:39
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Segunda-feira, 8 de Novembro de 2004

o regresso do morto-vivo (parte 327)

desculpem lá o abandono a que votei esta coisa nos últimos tempos. podia tentar justificar-me dizendo que tenho andado muito ocupado, o que até é verdade, podia culpar a minha frágil saúde mental (apesar de a terapia electro-convulsiva estar a dar excelentes resultados), mas para ser honesto tenho apenas sido preguiçoso. posto isto, e para celebrar condignamente a volta do zombie ao activo, decidi que devia abrir esta nova temporada com um filme que tivesse a palavra "regresso" no título. acho que concordarão comigo que a escolha só podia ser uma:

lagoon
return to the blue lagoon

um filme de william a. graham
com milla jovovich, bran krause e lisa pelikan
estados-unidos, 1991 imdb

e o que é que vos posso dizer sobre return to the blue lagoon? bom, assim de repente...














(2/10)
jorge

foi impossível postar aqui durante todo o fim-de-semana. estou capaz de esganar alguém. os administradores do sapo parecem achar que o facto de o serviço ser gratuito justifica o seu total desprezo pelos utilizadores. o zombie está oficialmente à procura de um novo alojamento. estou a considerar o typepad, mas se tiverem outras sugestões digam qualquer coisa nos comentários (se estes funcionarem).

publicado por jorge às 04:00
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Terça-feira, 2 de Novembro de 2004

de volta a 6 de novembro

i'll be back


publicado por jorge às 02:14
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