Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2004

crítica: octopus 2 - river of fear

onde está o michele placido quando precisamos dele?

um filme de yossi wein
com michael reilly burke, meredith morton e fredric lehne
estados unidos, 2001 imdb

octopus 2: river of fear é sobre um polvo gigante que come pessoas no porto de nova iorque. eu sabia o que estava a trazer para casa do videoclube. quer dizer, mesmo que não tivesse visto o primeiro octopus era bastante óbvio só de olhar para a capa que antes de a noite acabar mais alguns dos meus neurónios estariam irremediavelmente perdidos e que o meu cérebro ia doer. mas caraças, um polvo gigante que come pessoas no porto de nova iorque? como é que eu não ia alugar isto?

para quem não chegue lá pelo título ou pela capa: este filme é mau. tipo muito. nas palavra imortais de thora birch no ghost world é tão mau que deu a volta por bom e voltou a ser mau outra vez. ou qualquer coisa do género. consigo-me lembrar de coisas piores mas a maior parte delas envolve vidro moído em contacto com partes sensíveis da minha anatomia. e o primeiro octopus. esse era pior.

se ainda estão a ler gostarão certamente de saber que este filme saiu da pena de boaz davidson, dono de uma extensa carreira como argumentista e realizador cujo ponto alto é, na minha opinião, o inimitável american cyborg: steel warrior. e sim, leram american cyborg: steel warrior e ponto alto na mesma frase. boaz davidson é também responsável pelos guiões de crocodile 2 e spiders 2, o que significa que há aqui uma certa coerência. de yossi wein, o realizador, nunca vi nada mas sei que conta no currículo com obras do calibre de operation delta force 5: random fire e cyborg cop III (o que é que se passa com esta gente e os ciborgues?), não sei porquê estes títulos enchem-me de alegria.

mas devem querer saber sobre o filme certo? então é assim: começamos à noite com um casal à beira da água e como já sabemos que isto é um filme sobre um polvo gigante que come pessoas o que acontece a seguir é bastante óbvio. rapidamente aparecem uns tentáculos muito ameaçadores que os arrastam para as profundezas. é mais ou menos isto. tirando a parte de os tentáculos serem ameaçadores. e de os arrastarem para as profundezas. são mais eles que arrastam os tentáculos. o incidente é presenciado por um vagabundo alcoólico. estão a ver o tipo de que estou a falar? do tipo em quem ninguém vai acreditar quando disser que viu um polvo gigante que come pessoas a arrastar um casal para as profundezas.

nick (burke) e walter (lehne) fazem parte da patrulha marítima de nova iorque, a força policial que patrulha as águas do porto da cidade, e estão prontos a abordar um barco suspeito de traficar droga. uma instituição menos importante interceptaria o barco com as duas lanchas onde a equipa de nick e walter o está a vigiar. mas na patrulha marítima as coisas são feitas de maneira diferente. os nosso rapazes vestem fatos de mergulho e aproximam-se por baixo de água para aparecer no barco ao mesmo tempo em que chega a lancha dos colegas. o criminoso afinal não é criminoso nenhum, é um juiz que está a pescar e quando damos por isso estamos na manhã seguinte com chefe a desancar os nossos heróis. depois manda-os verificar uns problemas nuns cabos eléctricos subaquáticos. e se vocês estão a pensar porque raio é que são enviados agentes da polícia para verificar problemas com cabos eléctricos, bom, deve ser porque vão encontrar no local o corpo de uma das vitimas da primeira cena. o corpo de uma das pessoas que foram atacadas pelo polvo gigante que come pessoas. estão-me a acompanhar?

é também na cena do crime que conhecemos rachel (morton), que trabalha no gabinete do mayor, e foi enviada para saber como está a correr a investigação. porque estão a chegar as comemorações do 4 de julho e o porto de nova iorque vai atrair milhares de pessoas para "o maior fogo de artificio de sempre". o mayor não quer que nada prejudique os festejos, percebem? o que temos aqui é o tipo de mayor que não vai deixar um reles polvo gigante que come pessoas estragar o seu fogo de artificio. quando se estão a afastar do cais nick vê uma garrafa caída no chão e sabe automaticamente quem foi o vagabundo que presenciou a cena. o exacto vagabundo. a sério. uma olhadela à garrafa e já está. se isto não vos der uma pista sobre o tipo de talento presente na patrulha marítima de nova iorque, há outra cena mais à frente em que vemos um colega de nick a olhar para um talão de cartão de crédito de um restaurante e a saber automaticamente em que hotel, e em que quarto, a pessoa que o utilizou está alojada. o número do quarto. juro.

mas fiquem comigo, não se preocupem que não vou contar o filme todo, mas há mais uns pontos que queria passar. os nossos agentes encontram o sem-abrigo nos túneis subterrâneos onde normalmente vivem os sem-abrigo. vocês sabiam isso, certo? sobre os sem-abrigo e os túneis? pois. o homem conta-lhes do polvo e claro que eles não acreditam. mas o nick, que depois do truque da garrafa já percebemos que deve ser o cérebro do par, acaba por pensar que talvez não seja uma história tão maluca como isso. além do mais o colega já disse que se ia reformar na semana seguinte. e se há uma coisa certa neste mundo é que num filme com um polvo gigante que come pessoas o colega que se vai reformar na semana seguinte não vai chegar à ficha técnica. por favor não pensem que ao estar a revelar isto vos estou a estragar o filme. não há maneira de o estragar mais do que já está.

bom, eventualmente nick fica convencido que há mesmo um polvo gigante que come pessoas à solta. mas obviamente ninguém acredita nele. nem depois do colega ter sido jantado pelo polvo. a única pessoa que acaba por acreditar nele é rachel. que logicamente se apaixona por ele. mas depois também ninguém acredita nela. e há um autocarro cheio de crianças que vêm para as comemorações e inclui uma menina de cadeira de rodas que diz que aquele está a ser o melhor dia da vida dela. estão a ver o tipo de autocarro de crianças de que estou a falar? o tipo que vai estar ameaçado por um polvo gigante que come pessoas dentro de muito pouco tempo é o que é.

as crianças visitam nova iorque em versão imagem de arquivo. cada vez que olham pela janela temos mais um panorama da cidade obviamente retirado de outro lado. aliás, acho que o filme não foi feito num raio de mil quilómetros de nova iorque, se virem a ficha técnica encontram mais nomes de leste do que na lista de empregadas da passerelle. quando finalmente a miudagem sai do autocarro é para ver uma árvore. uma árvore normal, no passeio. não o empire state building, não times square. uma árvore. acho que já perceberam o tipo de obra que aqui temos. dói-me a cabeça.

mas deixem-me dar-vos mais alguns pontos altos. desculpem, mais alguns pontos. há um combate entre o polvo e um barco e o polvo ganha mas faz batota porque ataca o barco com cenas do primeiro filme. assim também eu. há um combate entre o polvo e a estátua da liberdade e o polvo ganha, mas não conta porque era só um sonho. acho que este polvo é uma fraude. há um combate entre o polvo e uma grua e o polvo volta a ganhar porque a ataca com um tentáculo cgi que deve ter sido feito num spectrum. por falar em cgi o polvo é mau. muito mau. alterna entre o já mencionado cgi mau, tentáculos de borracha maus (pensem bride of the monster mau, ou se não souberem o que isso é pensem na cena entre o martin landau e o tentáculo no ed wood) e cenas recicladas do primeiro filme (que além de serem más não encaixam minimamente). pelo meio há também imagens de arquivo de um polvo verdadeiro, daqueles de tamanho normal, que são boas mas que são, pronto, imagens de arquivo de um polvo verdadeiro. não há muita arte envolvida em utilizar imagens de arquivo de um polvo verdadeiro.

há uma parte, perto do fim, em que sem razão aparente a coisa se transforma no daylight, completo com autocarro e túnel, e de repente parece que estamos a ver outro filme. acho que o realizador percebeu que aquela miséria de polvo não era ameaça suficiente e decidiu espevitar um bocado as coisas. e pergunto-me: em que estado mental precisa um tipo de estar para achar que é boa ideia copiar o daylight? tão mau ou pior do que eu estava nessa altura do filme. aliás, de repente, o daylight já não me parecia assim tão mau como isso. temos portanto dez minutos de filme catástrofe mau para juntar ao filme de monstros mau. o polvo regressa para um último ataque apesar de o termos visto explodir em pedaços alguns minutos antes. no fim nick salva toda a gente incluindo a menina da cadeira de rodas e uma velhota (que não é mesmo uma velhota, é uma mulher de meia idade com uma peruca branca) e o seu cãozinho e a história tem um final feliz: termina na altura em que estou a preparar-me para arrancar os olhos com um garfo.

ainda está aí alguém? ok, hora da avaliação final: melhor filme de sempre sobre um polvo gigante que come pessoas no porto de nova iorque. podem escrever isso na capa.

2/10
(porque é mais divertido do que enfiar a pila numa ventoínha)
jorge

publicado por jorge às 03:33
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Fevereiro 2005

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28


.posts recentes

. o zombie faz hoje anos

. onde raio se meteu o zomb...

. o zombie não é surdo

. prémios lumière

. o zombie já viu: finding ...

. what about you, boy? you ...

. críticas de bolso: teenag...

. larry buchanan 1923-2004

. uma noite com ilsa

. críticas de bolso: night ...

.arquivos

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Setembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Março 2004

. Fevereiro 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds