Terça-feira, 23 de Novembro de 2004

uma noite com ilsa

ilsa

nestas noites frias de novembro o zombie sente a falta de uma companhia que lhe aqueça o coração e a cama. alguém que dê sentido à sua solitária existência de morto-vivo. com quem apeteça ficar em casa, debaixo dos cobertores, a ouvir a chuva lá fora, partilhar um chocolate quente e ver a versão sem cortes do cannibal ferox.

e será possível imaginar melhor companhia para estas longas noites invernais do que uma dominatrix quarentona, de peito abundante e farda das ss?

ok, não respondam a essa pergunta.

proveniente da abençoada década de 70, em que não parecia haver limites ao que se podia mostrar no grande écran, a série ilsa tem lugar cativo na lista dos mais infames produtos da sétima arte. com algo capaz de ofender toda a gente, e alegremente alheia às regras ditadas pelo politicamente correcto e pelo bom gosto, a sua mistura choque de sexo softcore e violência hardcore garantiu que estes filmes transcendessem o seu estatuto de simples exploitation e se transformassem em genuínos objectos de culto para cinéfilos em todo o mundo. cinéfilos que provavelmente têm problemas.

só porque gosta de vocês™ o zombie passa mais de seis horas a olhar para as mamas da dyanne thorne e partilha as suas conclusões.



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ilsa, she wolf of the ss (1974)
de don edmonds, com dyanne thorne e gregory knoph

she wolf começa com um aviso do produtor que fala sobre as atrocidades do terceiro reich. o que se segue, porém, não é propriamente o shoah. ilsa é a comandante de um campo de experiências médicas nazi. decidida a provar a sua teoria de que as mulheres são capazes de suportar maiores quantidades de dor do que os homens, passa os dias a torturar alegremente as suas prisioneiras e a noite, porque a vida não pode ser só torturar, a obrigar os prisioneiros a satisfazê-la sexualmente, castrando-os de seguida. wolfe, um prisioneiro recém-chegado ao campo, é poupado a esta sorte por causa da sua extraordinária capacidade de "aguentar toda a noite". como bónus a comandante até o deixa dar uma voltinha nas suas duas capangas lésbicas arianas. porque é que depois disto wolfe continua a insistir em conspirar contra ela é algo que me ultrapassa.

em traços largos, para aqueles que fazem questão de saber "sobre o que é" um filme, é isto. claro que a história é um elemento secundário aqui, tendo por único objectivo sequenciar os abusos, humilhação, tortura e desmembramento a que ilsa submete os prisioneiros, e exibir quantidades industriais de nudez frontal. estavam à espera do quê? acham que alguém vê estas coisas por causa do argumento?

filmado em nove dias nos cenários da série televisiva hogan's heroes, she wolf tem um aspecto bem mais profissional e polido do que o seu baixo orçamento faria adivinhar. o que torna a galeria de atrocidades exibida numa experiência potencialmente muito incómoda para os que tenham um estômago mais fraco. os efeitos gore de joe blasco (que de seguida trabalharia com cronenberg) são bastante bons para a época e o realizador don edmonds mantém as coisas a andar a bom ritmo. o verdadeiro golpe de mestre foi no entanto o casting de dyanne thorne para protagonista. apesar de já ter passado dos quarenta à época das filmagens, a ex-showgirl de las vegas transformar-se-ia num ícone sexual capaz de atravessar gerações à conta deste papel. mesmo com uma capacidade dramática limitada, a sua presença no écran é magnifica, capaz de despertar ao mesmo tempo terror e desejo. e, claro, o facto de ter sido abençoada pela natureza com aquele peito imponente também não lhe é prejudicial.

um dos raros produtos exploitation que quase trinta anos depois ainda está à altura da sua reputação, ilsa, she wolf of the ss não perdeu a sua capacidade para chocar ou ofender e continua a garantir divertimento para toda a família. principalmente se fizerem parte da família manson. se não, o melhor é irem alugar o schindler's list ou qualquer coisa do género. (6/10)

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ilsa, harem keeper of the oil sheiks (1976)
de don edmonds, com dyanne thorne e max thayer

pelos vistos não será um pormenor insignificante como a morte que vai impedir ilsa de continuar a semear o seu reino de terror à volta do mundo. de volta ao activo em pleno médio oriente, a amazona germânica é agora capataz do harém do xeque el sharif (não me perguntem pelos outros oil sheiks, só vi um). o seu trabalho? torturar, mutilar, matar, enfim... uma rapariga tem de fazer o que uma rapariga tem de fazer. para a ajudar tem um novo par de capangas lésbicas, desta vez em versão blaxploitation, mas de resto está na mesma. fresca como se nunca tivesse morrido 30 anos antes.

infelizmente parece que o xeque tem estado a acumular grandes quantidades de petróleo o que significa, como já se sabe nestas coisas, que é só uma questão de tempo até chegarem os americanos. e quando o agente secreto adam chega ao palácio as coisas só podem correr mal. até porque parece que o coração gelado da nossa cabra sado-maso favorita está prestes a descongelar.

harem keeper tem quase tudo a seu favor. o afastamento do universo nazi diminui de forma significativa a sua carga ofensiva (por falar nisso, se quiserem ver um filme verdadeiramente ofensivo sobre o holocausto experimentem o la vita è bella), mas há gore e nudez gratuita em quantidades suficientes para não deixar ficar mal os fãs. aliás, desenganem-se os que estiverem a pensar que os níveis de depravação e crueldade presentes, se bem que inferiores aos de she wolf, são mais toleráveis para quem não tenha um estômago forte. tenho duas palavras para vocês: diafragma explosivo. no entanto a adição da trama de espionagem e o facto de a série ter, por esta altura, desenvolvido um sentido de humor tornam o carrossel de atrocidades bastante mais fácil de suportar.

thorne está em grande forma e, apesar de passar mais tempo vestida do que seria recomendável, continua a ser uma presença fascinante. thayer é um cepo mas o resto do elenco não vai mal, com destaque para o misterioso victor alexander que no papel do xeque rouba todas as cenas em que participa e para a presença de algumas das vedetas mamárias preferidas de russ meyer: uschi digard (que já tinha feito uma perninha no anterior), haji e sharon kelly (a actriz porno colleen brennan). o realizador don edmonds, de novo aos comandos, volta a fazer brilhar o seu parco orçamento e o filme tem quase aspecto de ter sido produzido por um estúdio a sério, facto a que não terá sido alheia a presença do director de fotografia dean cundey (a caminho de trabalhar com spielberg, zemeckis e carpenter).

se a expressão "divertido" pudesse ser aplicada a algum filme da série, acho que este seria o escolhido. claro que a perspectiva de uma ilsa apaixonada, a suspirar como uma colegial, é um bocadinho desconcertante. nesse aspecto harem keeper mancha-lhe a reputação e retira-lhe pontos junto àqueles de nós que preferem a versão de coração negro e seco. mas suponho que até as cabras malvadas podem conhecer o amor. e o filme tem lutadoras lésbicas de artes marciais afro em topless. não me parece possível ultrapassar isso. (6/10)

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ilsa, the wicked warden (1977)
de jesus franco, com dyanne thorne e lina romay
título original greta, haus ohne männer
aka greta the mad butcher, wanda the wicked warden

o terceiro capítulo das aventuras de ilsa, se nos quisermos armar em esquisitos, pode ser considerado ilegítimo. parece que o lendário produtor erwin c. dietrich, responsável pela distribuição europeia dos filmes anteriores, resolveu apanhar uma boleia do sucesso da série e subsidiar a sua própria imitação. felizmente para nós conseguiu assegurar o(s) talento(s) de dyanne thorne e do mestre espanhol do cinema sádico/perverso/esquisito (e favorito do zombie) jesus "jess" franco.

assim nasceu greta (ou wanda, estas coisas têm tantas versões que é difícil ter a certeza), uma ilsa de permanente ruiva à qual reposições e edições vídeo posteriores devolveriam o verdadeiro nome. desta vez a nossa menina está ao comando de um hospital para mulheres com problemas psiquiátricos, num qualquer país da américa latina. e, fiel aos seus velhos hábitos, não olha a meios para limpar as pacientes das suas perturbações (apresentadas como "ninfomania, lesbianismo e prostituição"). na verdade o hospital é uma fachada; o local é uma prisão utilizada pelo regime fascista para torturar e eliminar presos políticos. é isto que vai descobrir a jovem abby (tania busselier) quando ali se infiltra para tentar saber o que aconteceu à irmã desaparecida.

o realizador faz jus à sua reputação, apresentando um catálogo de atrocidades capaz de fazer os primeiros dois filmes parecerem episódios de uma casa na pradaria. definitivamente o homem não pode ser normal. entre outras coisas há tortura genital com ácido, choques eléctricos, alfinetes no peito e uma sequência intragável em que a futura sra. franco, lina romay, demonstra um método alternativo de higiene pessoal. e se acharam que o destino reservado para ilsa em harem keeper era grotesco esperem só até ver o que lhe acontece aqui. o elenco competente ajuda à credibilidade da coisa, incluindo thorne, que também, nesta altura do campeonato, já devia conseguir fazer o papel a dormir.

franco contra-balança as sequências mais extremas com filmagens langorosas das detidas nuas no duche ou dos longos banhos de espuma da directora, e evita, na sua maior parte, o recurso às suas mais estranhas "estilizações" visuais. mas é abaixo da superfície que a sua presença consegue transformar wicked warden em algo que transcende o seu mero objectivo comercial. e não estou a falar da mensagem política anti-fascista, que é óbvia ao ponto de o realizador em pessoa interpretar o opositor do regime dr. arcos. é que ilsa e os seus capangas filmam a tortura e morte das prisioneiras e distribuem as gravações no mercado negro. para vender a sacanas perturbados que acham divertido ver filmes sobre mulheres a serem torturadas e mortas. (7/10)

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ilsa, the tigress of siberia (1977)
de jean lafleur, com dyanne thorne e jean-guy latour
aka tigress

se quisermos traçar uma cronologia da série, suponho que a nossa comandante pneumática terá ido tomar conta de um gulag para a rússia estalinista pouco depois dos eventos retratados em she wolf. mas porque raio é que estou a falar de cronologias? ilsa morre no final de todos os três filmes anteriores. essa é a cronologia.

de qualquer maneira, a abertura do derradeiro capítulo da saga encontra a directora de prisão sádica favorita de todos nós de novo a fazer das suas, desta vez num campo de prisioneiros soviético. e, pelos vistos, é business as usual já que os seus métodos de "reeducação" para dissidentes políticos envolvem afogamento em água gelada, concursos de braço de ferro sobre moto-serras ligadas, ou, simplesmente, servi-los como jantar ao seu tigre de estimação. os seus apetites sexuais também parecem estar em forma, com os momentos de lazer ocupados a rolar no feno com latagões do exército russo, aos dois de cada vez. mas todas as coisas boas têm um fim e a queda do regime estalinista obriga-a a uma retirada estratégica.

vinte e cinco anos depois ilsa estabeleceu-se no canadá (no canadá?) onde é uma empresária em ascensão na indústria dos bordéis. o passar dos anos deve ter amolecido a nossa heroína (que continua exactamente com o mesmo aspecto que tinha nas sequências iniciais), visto que agora parece mais interessada em utilizar equipamentos sofisticados de controlo mental do que na boa velha tortura física. e quando um dos seus prisioneiros sobreviventes do gulag chega à cidade a acompanhar uma equipa de hóquei ilsa decide terminar o trabalho que iniciara tantos anos antes.

não sei bem o que aconteceu aqui mas, o que quer que fosse, não foi bom. o primeiro terço do filme passa-se no território habitual da série e, apesar da violência e fetichismo parecerem um pouco em piloto automático, as coisas até parecem bem encaminhadas até à súbita transferência da acção para o canadá. aí, sem razão aparente, a amazona teutónica transforma-se de repente num vilão sub-bondiano, uma espécie de fu manchu com mamas, e o filme numa aventura de espionagem série b que não tem nada a ver com nada. pode até ser divertido nesta perspectiva (certamente é o mais alucinado dos quatro), e recomendável como introdução aos que não tenham estômago para os outros, já que a violência e perversidade tradicionais da série estão, em grande parte, ausentes. mas ilsa? não me parece. aliás, o nome nunca é mencionado durante o filme o que, aliado ao facto de se tratar de uma produção canadiana, levanta algumas suspeitas em relação à sua legitimidade. além disso a mudança de foco para vítimas masculinas e o aparente desinteresse da nossa heroína pelos prazeres sáficos são, a meu ver, falhas imperdoáveis. morna e pouco interessante a ilsa canadiana não está simplesmente à altura da sua reputação. e não é como se o canadá não conseguisse produzir entretenimento com base em atrocidades. vejam a celine dion. (4/10)

é uma das minhas grandes tristezas que o planeado quinto filme de ilsa nunca tenha passado da fase de desenvolvimento. tristeza provocada não só pelo carinho que sinto pela série, mas porque tenho a certeza que este teria sido sem qualquer dúvida o melhor filme alguma vez feito. mesmo.

jorge

publicado por jorge às 11:55
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7 comentários:
De Anónimo a 11 de Dezembro de 2004 às 05:45
infelizmente a referida pérola cinematográfica nunca chegou mesmo a passar do papel, a crítica em causa é uma brincadeira de 1 de abril. quanto ao dvd, parece que a minha memória está a apodrecer a um ritmo ainda mais acelerado do que o resto da carcaça. estará no correio segunda-feira com as minhas desculpas.zombie
(http://zombie.blogs.sapo.pt/)
(mailto:zombie@sapo.pt)


De Anónimo a 8 de Dezembro de 2004 às 01:43

Bem, as fotos de mulheres dominadoras são muito eróticas.
http://travesti.blogs.sapo.pted
</a>
(mailto:edwardwood@sapo.pt)


De Anónimo a 8 de Dezembro de 2004 às 01:29
Caro zombie, o meu amigo termina este post com uma nota de tristeza pelo último "Ilsa picture" que nunca terá sido feito, mas deixe-me dar-lhe alguma esperança. "Ilsa Meets Bruce Lee In The Devil's Triangle", penso que é a este filme que se refere, terá sido mesmo feito, mas nunca visto e até estará disponível no mercado bootleg. Confira no http://www.badmovieplanet.com/unknownmovies/reviews/rev420.html e diga de sua justiça, se esta informação merece alguma credibilidade

p.s.- já agora, e o tal dvd do tal concurso, vem ou não vem?Eduardo D Madeira Jr
(http://otroncodateia.blogspot.com)
(mailto:eduardodmadeirajr@hotmail.com)


De Anónimo a 5 de Dezembro de 2004 às 20:45
eu sei que vc n me conhece mas gostaria que comenta-se meu blog.
ah seu blog ta legal mas ta faltando imgem
luisa
(http://www.specialthings.theblog.com.br)
(mailto:luisawitzel9@hotmail.com)


De Anónimo a 2 de Dezembro de 2004 às 05:24
Parabéns, por este Mágnifico Blog...
Está fixe, impecáveL!
Desde o Blog:
http://chaves.blogs.sapo.pt
http://www.1000imagens.com/pedromalheiros

1abraço.com
Pedro MalheirosPedro Malheiros
(http://www.1000imagens.com/pedromalheiros)
(mailto:artcreativedesign@hotmail.com)


De Anónimo a 27 de Novembro de 2004 às 07:19
Dah uma passadinha lah no meu blog e me adiciona no msn, gostaria de tc tg sobre esse post!Carol
(http://www.carol_cps.blogger.com.br)
(mailto:cns_cps@hotmail.com)


De Anónimo a 24 de Novembro de 2004 às 19:27
Não conhecia esta Ilsa. Obrigada pelo apontamento :)Conchita
(http://diariodeconchita.blogspot.com)
(mailto:conchita_marquez@aeiou.pt)


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