Terça-feira, 9 de Novembro de 2004

crítica: the village

village.jpg

um filme de m. night shyamalan
com joaquin phoenix, bryce dallas howard, william hurt e sigourney weaver
estados unidos, 2004 imdb

agora que já lá vai algum tempo, acho que me posso esticar nas palavras que tenho a dizer sobre the village. presumo que quem estava realmente interessado em ver o mais recente trabalho de shyamalan já o fez há muito (claro que há sempre aqueles que pensam que vêem cinema em casa e preferem esperar pela edição em dvd... okay, terei esses em consideração e não revelarei o final, mas aviso desde já que é bem possível que encontrem pistas suficientes para lá chegarem por vocês mesmos. portanto, se não quiserem correr o risco, parem de ler no ponto final que se segue).

vamos lá então: a acção de the village passa-se numa época e local indeterminados. se no que diz respeito à época podemos supôr que rondará a viragem do século xix para o século xx, no que toca ao local, não supomos nada… sabemos apenas que se trata de uma comunidade isolada, de onde nenhum habitante pode sair porque a floresta que a rodeia é habitada por por criaturas sem nome que, segundo consta, não gostam mesmo nada que os humanos saiam da vila e vão meter o bedelho na referida floresta, irritando-se forte e feio quando tal acontece.

com base nisto, shyamalan constrói não só o seu pior filme, como também um dos piores filmes do ano. o que se segue é óbvio. um acidente deixa um habitante às portas da morte e a precisar de um medicamento que só pode ser obtido nas cidades que ficam do outro lado da floresta. alguém vai ter de atravessar a floresta e enfrentar as criaturas que aterrorizam a vila há não sei quanto tempo (criaturas essas que os anciões, em vez de lhes atribuir um nome, designaram, numa tradução directa do inglês, de "aqueles de quem nós não falamos"… o que dá sempre jeito em qualquer língua e não é mesmo nada parvo… ou então é...)

no que toca a parvoíce, the village não se fica por "aqueles de quem nós não falamos", mas em vez de chafurdar na lama durante o resto do texto, mais vale meter logo a cabeça no lodo e dizer que missão de sair da vila, atravessar a floresta, enfrentar "aqueles de quem nós não falamos", alcançar a cidade, arranjar o medicamento, regressar à vila e manter a ordem natural das coisas (pelo meio já aconteceu o tão ansiado twist) cabe… a uma cega!… a uma cega?!… pior que isto só mesmo o velho e caduco truque do "foi tudo um sonho"... na escala de evolução das soluções de argumento, estas duas são do mais primata que há. mesmo assim, muitos são os filmes em que “foi tudo um sonho” e são melhores do que the village!

e porquê?... porque, antes de mais, não se tentam justificar com uma mensagem sobre a vilania da sociedade, que não só é redundante como é também metida sob pressão no argumento para validar a existência da vila. e depois, porque são filmes bem mais coerentes do que as duas horas que shyamalan leva para chegar um twist sem qualquer impacto... ou mesmo que tivesse algum impacto, ao fim de meio filme, já a dormência causada pelo vazio da história e a transparência das personagens impede que se sinta seja o que for.

the sixth sense não é tão bom como o pintaram, mas é muito mais interessante do que the village. ambos são construídos sobre uma premissa simples e linear. a diferença é que no primeiro a atenção do realizador estava bem focada no seu twist e conseguiu com isso criar um competente exercício de suspense; no segundo o realizador só poderia estar a dormir... no primeiro shyamalan não nos dava tempo para pensar racionalmente nas improbabilidades da sua história e a coisa resultava; no segundo, há tempo para pensar em tudo e mais alguma coisa... só o tempo que a cega leva a atravessar a floresta permite trazer à mente, vezes sem conta, a suposição "isto tinha piada se ela chegasse ao outro lado e encontrasse...". e mesmo que depois esqueçam que pensaram isso, quando isso de facto acontece, já se tornou tão ridículo que até mete dó. principalmente com uma cega como desculpa... uma cega!... como é que é possível descer tão baixo?!...

entrei na sala para ver o the village convencido que o melhor twist que shyamalan poderia criar era fazer um filme melhor que o unbreakable. não esperava que tal acontecesse, mas também não esperava o seu pior filme. se m. night shyamalan pensa fazer carreira a fazer truques, devia ir para ilusionista. se a ideia é continuar a fazer filmes, devia alugar o referido unbreakable e relembrar o que é um filme a sério.

(3/10)
marco

publicado por jorge às 01:39
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12 comentários:
De Anónimo a 21 de Novembro de 2004 às 00:04
Só mesmo para dizer que fico contente de ver que, afinal, não sou o único na blogosfera que achou "The Village" um desapontamento. Os comments ao meu texto (http://cine-arte.blogspot.com/2004/10/comentrio-sobretudo-sobre-narrativa-de.html) sobre o filme em questão estavam a dar-me a ideia de que, realmente, devia estar distraído quando a grandeza do filme passou no ecrã em que o vi...

Ah, e é bom ver o zombie de volta da cova! :)Ricardo Gonçalves
(http://cine-arte.blogspot.com/)
(mailto:RF.Goncalves@mail.telepac.pt)


De Anónimo a 18 de Novembro de 2004 às 21:32
como sabem, o zombie gosta de vocês e respeita as vossas opiniões... mas há uma coisa que me intriga... vocês acreditam mesmo que se o charlton heston fosse cego, o "planeta dos macacos" fazia algum sentido?marco
(http://zombie.blogs.sapo.pt)
(mailto:zombie@sapo.pt)


De Anónimo a 18 de Novembro de 2004 às 06:16
Eu diria à Bananita que concordo com ela no sentido em que acho que as pessoas são livres de expressar a sua opinião, mas que ao menos percam algum tempo a pensar numa crítica construtiva. A mim parece-me que és daquelas pessoas que ao ver um bombardeamento no notíciário, dizes: "Bah! Aquele tipo que caiu agora no chão tinha 1 penteado de merda!" :P
Mas pronto, tá-se bem*Conchita
(http://diariodeconchita.blogspot.com)
(mailto:conchita_marquez@aeiou.pt)


De Anónimo a 17 de Novembro de 2004 às 18:55
Chama-se uma opinião, e que eu saiba, tenho direito à minha.Bananita
(http://americantiger.blogspot.com)
(mailto:Bananita@bananita.pt)


De Anónimo a 16 de Novembro de 2004 às 20:54
se sabes fazer um filme melhor que aquele( o k duvido, nem k seja uma curta metragem), então faz e cala-te, mas n te ponhas a criticar o trabalho dos outros, quando esse trabalho até nem é muito maupips
</a>
(mailto:pips_in_the_house@hotmail.com)


De Anónimo a 15 de Novembro de 2004 às 20:11
Não sou capaz de dizer que o filme é mau, mas digo que não é nada bom, nada mesmo. O que eu acho que ainda gostei mais foram as capas deles, tipo shaman. De resto... Bah... Estou indecisa se o pior filme dele é o Unbreakable ou o Signs. Irritante também a maneira como o senhor se meteu à pressão no filme só para dizer "iuuuhuuuuu, estou aqui!". Mas o mais horroroso é que não consigop evitar e pensar na artificialidade e nas amputadas mentais que ficariam as pessoas que nasceriam naquela aldeia. Que triste.Bananita
(http://americantiger.blogspot.com)
(mailto:Bananita@bananita.pt)


De Anónimo a 13 de Novembro de 2004 às 15:04
Não é verdade que "A missão de sair da vila, atravessar a floresta, enfrentar "aqueles de quem nós não falamos", alcançar a cidade, arranjar o medicamento, regressar à vila e manter a ordem natural das coisas" caiba… a uma cega.

Ela deveria ir acompanhada todo o caminho até chegar a uma estrada, e aí sim num caminho fácil de percorrer por um cego, seguir sozinha.

Não é o que acontece porque é abandonada pelos acompanhantes (além disso, quando é enviada para a sua missão, é-lhe dito que deve seguir o rio, para além de supostamente já não haver perigo em relação às criaturas).

Da maneira como escreves fazes realmente a coisa parecer ilógica, quando na verdade não é.

Quanto ao filme é um dos melhores do ano. 10/10João Farinha
(http://dvd.blogs.sapo.pt)
(mailto:joaoandre@sapo.pt)


De Anónimo a 12 de Novembro de 2004 às 21:33
Confesso que gostei do filme e gostei da base simbólica. Por muito redundante que pareça, põe em causa os valores do mundo moderno, perante um atraso medieval assumido por uns quantos que o impuseram aos seus descendentes.
Também me parece que é um final que causa impacto, como é tradição dos filmes de Shyamalan. Posso-te dizer que, no dia em que o fui ver, até causou mais do que isso, pois a sala estava cheia de teenagers que estavam à espera de um filme de terror...Conchita
(http://diariodeconchita.blogspot.com)
(mailto:conchita_marquez@aeiou.pt)


De Anónimo a 9 de Novembro de 2004 às 20:16
Eu ordeno-os assim:
1º Sixth Sense / 2º Sigsn / 3º Village / 4º Unbreakable
Mas duas notas; estão todos separados por milésimas de qualidade e o Unbreakable só está no último lugar, porque ainda não o vi :p
Shame on medermot
(http://www.cinephilus.blogspot.com)
(mailto:cinephilus@mail.pt)


De Anónimo a 9 de Novembro de 2004 às 16:10
que tareia...
não sendo brilhante, como muita gente diz, é facilmente o 2º melhor filme do Shyamalan.

1. unbreakable 8/10
2. the village 7/10
3. signs 6/10
4. the sixth sense 5/10kovacs
</a>
(mailto:koko@ahah.com)


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